OPINIÃO

A Amazônia real: uma experiência de vida

Correio Braziliense
postado em 02/11/2021 06:00
 (crédito: Caio Gomes)
(crédito: Caio Gomes)

Por IVES GANDRA DA SILVA MARTINS FILHO - Ministro do Tribunal Superior do Trabalho (TST)

Uma coisa é ler sobre a Amazônia e suas dificuldades, e outra, muito diferente, é visitar um dos seus pontos mais remotos, constatando como vivem e defendem nossa pátria os soldados que servem nesses rincões, onde só se chega por ar ou rio e o isolamento só é quebrado a cada 30 ou 40 dias, com os voos de abastecimento da FAB.

Em visita institucional de representantes do Poder Judiciário ao Comando Militar da Amazônia, à 2ª Brigada de Infantaria da Selva e ao 5º Pelotão de Maturacá, na fronteira com a Venezuela, a convite do general Gomes Mattos, presidente do Superior Tribunal Militar (STM), senti mais forte do que nunca o coração bater de emoção, ao cantar o Hino Nacional, olhando para a bandeira brasileira tremulando na linha do Equador, tendo ao fundo o Pico da Neblina, à frente uns 40 soldados do pelotão de selva, ao lado os generais Mattos, Furlan e Peixoto, além da presidente de meu tribunal, ministra Cristina Peduzzi, de integrantes do STM, Tribunal Superior do Trabalho (TST), do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), da Procuradoria-Geral do Município (PGM),do Banco do Brasil (BB) e de uma comitiva de índios ianomâmi com suas indumentárias e pinturas típicas, todos irmanados num mesmo sentimento profundo de brasilidade.

Ao saber que os ianomâmis têm parte de sua etnia na Venezuela, perguntei a um dos caciques presentes como era a relação entre eles. Impressionou-me vê-lo dizer que o contato é mínimo, pois, "nós somos brasileiros e vivemos aqui". Esse "ser brasileiro" se nota especialmente no contingente do 5º Batalhão da Brigada, que, de 1.400 soldados, 750 são índios de 23 diferentes etnias, preponderando a Baré, Tukano e Baniwa. Quando recebidos em São Gabriel, seis soldados indígenas nos saudaram em seus respectivos idiomas, sempre terminando com o grito de guerra do combatente amazônico: SEL-VÁ!

Mas a questão indígena não é a que mais preocupa, pois se o marco temporal da Constituição Federal de 1988 for respeitado, terão muito território de reservas para viverem e se desenvolverem. O que mais assola a região são, infelizmente, o narcotráfico, o garimpo ilegal e o desmatamento indiscriminado, pois onde o lucro é fabuloso, a corrupção está presente e os meios de evasão, num território imenso a ser patrulhado, parecem cada vez mais diversificados e bem sucedidos.

Os dados que obtivemos são alarmantes: 65% da droga produzida na Colômbia e na Bolívia passam pelo Brasil, rumo ao seu destino aqui, na América do Norte e na Europa. E só 10% têm sido apreendidos. O esforço para isso, dos pelotões de fronteira, é impressionante, com risco de vida e eventuais inquéritos quando reagem aos traficantes.Inquéritos, muitas vezes, injustificáveis, se tivermos em conta que estão defendendo a vida própria e a alheia, de tantos submetidos ao flagelo da droga. Pudemos acompanhar pequenas lanchas de patrulhamento fluvial e as medidas que adotam de proteção e combate. Sobre a mineração ilegal, o quadro é especialmente perverso, marcado pela corrupção e também pela prostituição infantil que a acompanha, acabando com a vida de tantas meninas, descartadas depois de um ou dois anos, com seus corpos e almas dilacerados.

Se, por um lado, no slogan do Exército, o seu "braço forte" precisa ser robustecido para fazer frente a tantos desafios de proteção de nossas fronteiras e de nossa pátria, por outro lado, impressionou-me também sobremaneira a atuação de sua "mão amiga". Que país no mundo pode dizer que tem contribuído para diminuir os sofrimentos de refugiados em situações de penúria extrema, como o Brasil? É o caso da Operação Acolhida, que recebeu mais de 24 mil venezuelanos fugidos da fome provocada pelo regime ditatorial da nação vizinha, que levou ao caos econômico, chegando sem nada e recebendo tratamento humanitário em abrigos, até seu encaminhamento a mais de 640 cidades brasileiras, com empregos e uma vida digna pela frente.

Também as populações ribeirinhas de toda a Região Amazônica têm sido atendidas pelas nossas Forças Armadas, com hospitais flutuantes, missões aéreas de manutenção de localidades e a proteção do Exército. Viajamos num C-190, aeronave de carga e de paraquedismo, para poder chegar em Maturacá. Emocionou-me, particularmente, ouvir, de um dos cinco oficiais do pelotão — o tenente médico Antunes — a alegria de conhecer-me, já tendo lido livros que escrevi sobre Chesterton e Tolkien, cujos valores de fé, perseverança e entrega aos demais que propalavam tanto precisavam ser vividos nessa aventura na selva. Tocou-me, nesse sentido, ouvir recitada por um soldado, na formação da tropa, a oração do soldado amazônico, quando pede ao Senhor especialmente as virtudes da "sobriedade para persistir... perseverança para sobreviver... fé para resistir e vencer... mas se tivermos que perecer, ó Deus, que o façamos com dignidade e mereçamos a vitória".

Sobre essa vitória, pensava na eterna, conquistada nesta vida pelo abnegado serviço ao próximo. Confesso que fiquei especialmente emocionado com a missa que pudemos assistir ao ar livre, uns poucos que madrugamos no último dia da visita, com o sol nascente servindo de vela do altar, montado no topo da guarnição, celebrada pelo capelão da Brigada, Pe. Deivison. Pedi a Deus por todos aqueles que têm dado sua vida pela defesa de nossa pátria, pelos que servem com desprendimento ao nosso país, lembrando nesse dia especialmente de quatro grandes figuras que estiveram e estão à frente do Comando Militar da Amazônia: os generais Augusto Heleno (que aniversariava no dia), Gomes Mattos (nosso líder da comitiva), Villas Boas (pela sua saúde) e Achilles Furlan (nosso anfitrião). E de todos os colegas com os quais convivemos nesta aventura amazônica, do STM, do TST, do CNJ, da PGM, do BB e das equipes de apoio. Laços fraternos que se criaram permanecerão.

Em suma, o Poder Judiciário foi à montanha. E viu uma realidade que precisa ser conhecida mais e melhor, exigindo medidas mais efetivas para solução de problemas que transcendem a Região Amazônica, afetando a todos nós.

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