opinião

O que conta é o amor

Rodrigo Craveiro
postado em 10/11/2021 06:00

Porque, no fim das contas, tudo o que conta é o amor. Parece clichê. Mas, ao ver o caixão com o corpo da cantora Marília Mendonça a uns quatro metros de mim, na tarde do último sábado, percebi que a frase tem um fundo de verdade. Minutos atrás, uma multidão de fãs emocionados cantava os principais sucessos da artista. Ali, ao lado do fim da passarela que os trazia do último encontro com Marília, no ginásio Goiânia Arena, uma espécie de coral enlutado transpirava vazio, mas, sobretudo, amor. Em cada olhar marejado por um oceano de dor, havia o sentimento de gratidão pela obra da artista. Por meio da música, Marília se mantinha viva.

Mais adiante, no cortejo fúnebre de 14km e quase 1 hora até o Parque Memorial de Goiânia, mais demonstrações de afeto. Foi difícil não se emocionar com a multidão sobre o viaduto, ansiosa para se despedir de quem lhes deu, por meio da arte, força e amor. Já em frente ao portão do Parque Memorial, 12 caminhões de duplas sertanejas renomadas fizeram um buzinaço, acompanhadas de dezenas de motociclistas. Foi uma espécie de celebração à vida de uma jovem talentosa de 26 anos, que teve uma ascensão meteórica no mundo da música e deixou um filho de 2 anos e uma mãe.

Sim, no fim das contas, tudo o que conta é o amor. Marcaram-me as lágrimas e as palavras sinceras da costureira Aparecida Alves, 50 anos, a mulher que amamentou Marília no dia seguinte ao parto — a mãe, Ruth Dias, estava impossibilitada de alimentar a criança por efeito da anestesia. Moradora de Cristianópolis (GO), município de pouco menos de 3 mil habitantes, Cida sonhava rever a cantora. Também foi impossível não se tocar com a rosa de papel que Marta Aparecida carregava presa à blusa. Uma referência à música Rosa embriagada, que, contou ao Correio, era a própria história da sobrinha, garota de programa.

O que dizer do orgulho da primeira professora de violão, Marli Franco Felix dos Santos, que incentivou a aluna de 11 anos a deixar de ter vergonha da própria voz? Ou do sofrimento do quarteto Kito, Isabella Resende, Rafaela Miranda e Gustavo Martins, amigos que compuseram Fã-clube, a última música gravada por Marília e cantada por ela pouco antes do trágico acidente?

A partida precoce e trágica de Marília Mendonça nos traz lições. A vida é um sopro. E, durante esse sopro, precisamos buscar os valores que realmente importam. Como cantava Renato Russo, é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Tudo o que temos é o agora. Tudo é por demais efêmero e incerto. E tudo que conta é o amor.

 

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