OPINIÃO

Atenção ao custo da inflação

Correio Braziliense
postado em 12/11/2021 06:00

"É preciso estar atento e forte", diz a canção "Divino e Maravilhoso", de Gilberto Gil e Caetano Veloso. Mas longe de estarmos em um momento que lembre o nome da música e sem se esquecer da morte, é preciso atenção e força para encarar a aceleração dos preços dos produtos que estão na base de cadeias produtivas e serviços e afetam uma série de custos à frente. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 1,25% em outubro veio novamente acima do esperado e, mais uma vez, deixou o acumulado em 12 meses em dois dígitos (10,67%), contrariando a previsão dos economistas de que o pico da inflação ocorreria em setembro, mês a partir do qual os preços inverteriam a tendência e começariam a recuar. Desde o início do governo Bolsonaro, o IPCA acumula alta de 18%, o terceiro maior índice para esse período de governo desde 2002.

A inflação é o pior dos impostos, porque se o índice geral é de 10,67% em 12 meses, nesse período o preço da gasolina aumentou 42,72%, o diesel sofreu reajuste de 41,34%, o gás de cozinha subiu 37,86%, a conta de luz ficou 30,27% mais cara e para quem viaja de avião o custo subiu 50,11%. Na mesa, a inflação de 12 meses está sufocando o orçamento das famílias com o açúcar subindo 42,47% e o café moído, 34,53%. Fubá (30,64%) e farinha de trigo (15,36%) encarecem o início do dia dos brasileiros, enquanto no almoço o cardápio da inflação vem com filé mignon, que subiu 38,07%, ou frango em pedaços (33,28%), acrescido de macarrão (alta de 14,28) e salada com batata-doce (51,34%), pimentão (85,37%) e tomate (31,99%).

Esses aumentos são percebidos pela população, que precisa estar atenta e forte para encaixar os preços altos ao orçamento do mês. Ao governo é preciso responsabilidade para que interesses eleitorais não se sobreponham à estabilidade econômica. Não se questiona a necessidade de um auxílio emergencial, diante do aumento da miséria no país, mas não se pode aproveitar essa necessidade para se ampliar significativamente os gastos, pois eles, em si, vão representar também mais inflação, seja pelo volume de recursos em circulação, seja porque elevam o risco fiscal do país, afugentando investidores e pressionado a alta do dólar.

No passado, foi a facilidade de governos de se financiarem com emissão de moeda e expansão da base monetária que alimentou o desarranjo de preços e levou à necessidade de inúmeros planos econômicos até que se chegasse ao Plano Real. Mais recentemente, em 2015, foi a crise que levou o índice de reajuste de preços a fechar o ano em 10,67%. Agora, mais uma vez os brasileiros voltam a temer o descontrole de preços, com a perspectiva de que os aumentos se mantenham no próximo ano muito acima da meta. Tradicionalmente, anos eleitorais são anos de aumento de gastos fiscais e pressão sobre preços.

Com a inflação se tornando um problema mundial por causa dos reajustes do petróleo, da energia e das commodities, é preciso que o governo não deixe apenas com o Banco Central a missão de agir para conter os reajustes. Isso porque a única ferramenta de que ele dispõe é a política monetária. Traduzindo, elevar a taxa básica de juros. Hoje em 7,75% ao ano — a mais alta desde setembro de 2017 —, a Selic deve chegar a 9,25% com nova alta de 1,5 ponto na última reunião do Copom este ano. Com o IPCA em alta, já há quem aposte em um aumento maior e os juros se aproximando ou mesmo chegando a dois dígitos.

Se, sobre os preços, os juros levam mais tempo para surtir efeito, sobre o crescimento econômico o efeito é imediato, tanto que já se fala em expansão do PIB abaixo de 1% em 2022, o que é insuficiente para gerar empregos e dar dinamismo à economia. É preciso estar atento, porque a piora da economia pode ter mais impacto nas urnas do que medidas populistas que representem mais gastos e contribuam para piorar a situação econômica. Se as famílias têm que ajustar o orçamento, o governo precisa ajustar o foco, para não deixar que a inflação fuja do controle ou permaneça alta por muito mais tempo.

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