OPINIÃO

Aprendendo a jogar

Correio Braziliense
postado em 19/11/2021 06:00
 (crédito: Maurenilson Freire)
(crédito: Maurenilson Freire)

ORLANDO THOMÉ CORDEIRO - Consultor em estratégia

"Vivendo e aprendendo a jogar

Vivendo e aprendendo a jogar

Nem sempre ganhando

Nem sempre perdendo

Mas aprendendo a jogar"

Esses são os primeiros versos de Aprendendo a jogar, música especialmente criada por Guilherme Arantes para Elis Regina em 1980 e que se tornou um sucesso na voz dessa cantora excepcional.

Recorro a essa obra para falar de um fato que mexeu fortemente com o mundo político: o evento de filiação de Sergio Moro ao Podemos na semana passada, que acabou se transformando num ato de lançamento de sua pré-candidatura à Presidência.

Ao contrário do que se esperava, em seu discurso não se limitou a falar do combate à corrupção. Tratou com propriedade de questões econômicas, sociais, ambientais e de gestão pública. Enfatizou a necessidade de erradicação da pobreza, defendendo a combinação de programas de transferência de renda com acesso a educação e oportunidades de trabalho e propondo a criação de uma força-tarefa a ser formada por servidores e especialistas.

Também fez a firme defesa da liberdade de imprensa e acenou para os militares com a valorização das Forças Armadas como instituição de Estado. Assumiu o compromisso com o fim da reeleição e do foro privilegiado. E quando falou de corrupção, indiscutivelmente seu melhor figurino, procurou mostrar ser diferente de Bolsonaro e Lula, com o bordão "chega de mensalão, chega de petróleo, chega de rachadinha". Enfim, procurou se apresentar como alguém em condições para dirigir o país.

Como apontei em colunas anteriores, Moro sempre demonstrou potencial para ser um candidato competitivo, entre outras razões, pelo apelo que a luta contra a corrupção tem junto à parcela significativa do eleitorado. Afinal, não há outra razão para explicar que, mesmo após os constantes bombardeios oriundos da Vaza-Jato e da suspeição declarada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), seu nome continuasse a mostrar uma grande resiliência em praticamente todas as pesquisas sobre eleições em 2022.

Respeitáveis analistas vinham divergindo dessa avaliação, duvidando, inclusive, de que ele se lançasse na disputa. Agora, mesmo reconhecendo o impacto do discurso do dia 10, apostam que servirá apenas para atrapalhar as demais pré-candidaturas da chamada terceira via. Não me parece ser essa a maior possibilidade.

O ex-juiz vem aumentando sua exposição pública, por meio de entrevistas para TV, rádio e jornais, reuniões com lideranças políticas e empresariais, além de incrementar sua presença nas redes sociais que já apresentam um crescimento relevante nas interações positivas.

Com isso, ouso afirmar que, nas próximas pesquisas, a tendência é de ele alcançar dois dígitos e se isolar no terceiro lugar, descolando-se de Ciro Gomes e ficando ainda mais distante do candidato escolhido nas prévias do PSDB.

Se ele conseguir se consolidar nessa posição nos próximos meses e, simultaneamente, Bolsonaro continuar a demonstrar uma maior fragilidade eleitoral, poderemos assistir a um movimento de migração de parte expressiva de atuais apoiadores de Bolsonaro em sua direção. Refiro-me àquela parcela que vem declarando intenção de voto no presidente, ainda que esteja descontente com seu governo. Para esse grupo, caso não identifiquem uma opção melhor no campo conservador, é preferível reelegê-lo a ver Lula novamente no Planalto. Portanto, não deve causar estranheza as iniciativas que ele já vem tomando no sentido de trazer ex-apoiadores do presidente para seu lado.

Por outro lado, o ódio que os bolsonaristas radicais e os petistas têm do ex-ministro pode ajudá-lo na tentativa de se cacifar como o único pré-candidato capaz de representar genuinamente os 40% conhecidos como "nem=nem". Ou seja, quanto mais ele se tornar alvo de ataques constantes de Bolsonaro e Lula, mais aumentam suas chances de crescimento.

Caso esse cenário se confirme, há uma enorme probabilidade de vermos dois movimentos: o primeiro, por volta de maio de 2022, seria a desistência de algumas pré-candidaturas da terceira via para se juntarem a Moro; e o segundo, mais próximo do primeiro turno, em que lideranças políticas de perfil conservador poderiam abandonar as candidaturas de seus respectivos partidos e migrar, por gravidade, para apoiar o ex-juiz. Afinal, a expectativa de poder exerce uma força de atração quase irresistível.

Por fim, é indiscutível que seus passos recentes, buscando o apoio de especialistas em diversas áreas, incluindo os serviços de fonoaudiologia, mostram que ele sabe a importância de viver e aprender a jogar. Vai vendo...

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