OPINIÃO

Brasília: do sonho ao pesadelo. Tudo vai depender do que fizermos agora

Por NATANRY OSORIO - Ex-administradora do Lago Sul, indicada pela comunidade; diretora do Conselho Comunitário do Lago Sul (CCLS) e uma das fundadoras da União dos Conselhos Comunitários do DF (UCCDF)

Vi Brasília nascer, quando aqui fui contratada, em 1959, por Israel Pinheiro, presidente da Novacap à época, como professora. Morava na Cidade Livre com meu marido Antonio Carlos Osorio, gaúcho, formado em direito e filosofia que, após cinco anos em Paris, aprofundando-se na Sorbonne, veio para a futura nova capital do país, em 1956, para investir parte do patrimônio da família em fazendas na região, que ouvia do pai que aqui se daria o desenvolvimento do Brasil.

E não é que meu sogro estava certo? Antonio Carlos acabou se tornando um advogado militante, e eu, com a chama de pioneira, uma professora comprometida; ambos, por força da aventura fascinante que foi e é a construção de Brasília, cidade sonhada por Dom Bosco e que, hoje, 61 anos depois, representa uma das maiores metrópoles do Brasil.

Como educadora, completamente seduzida pelo cerrado, berço das águas, com o qual tenho relacionamento emocional e afetivo, participo, até os dias de hoje, ativamente, do crescimento da cidade, no auge dos meus 83 anos.

Aliás, como deixar de me apaixonar por Brasília se, ainda na escola, aprendi que, desde a Proclamação da República, vinha desenhado no mapa do Brasil um retângulo vermelho com os dizeres: "Futura sede da capital federal"?

Devota de Dom Bosco, que muito inspirou a minha forma de enxergar o mundo, eu, desde muito pequena, me preocupo com crianças em situação de rua. Nesse sentido, em 1963, ajudei a fundar a Obra Social Pioneira no DF — Ação Social do Planalto, cujo objetivo é acolher crianças e adolescentes que saiam às 4h da manhã das cidades-satélites para, no Plano Piloto, venderem o jornal Correio Braziliense e engraxar sapatos. A rua é sedutora, e as crianças acabavam não voltando para casa. Sigo neste trabalho até hoje, por acreditar que ele faz sentido para a construção do mundo, com o desejo de que meus netos e bisnetos nele habitem e vivam dias melhores.

Para mim, a profecia de Dom Bosco, na verdade, é uma metáfora, pois estamos a 1.200m do nível do mar e não temos grandes rios, mas daqui nascem grandes bacias hidrográficas, em locais como Águas Emendadas, por exemplo. Não há dúvidas de que o Distrito Federal é o berço das águas, ainda que a crise hídrica assole o planeta, num estágio quase irreversível. Os estudiosos do meio ambiente alertam para os riscos do crescimento acelerado da área urbana do "quadradinho", impactando, portanto, significativamente, em nossos mananciais, tendo sido, inclusive, o bioma mais devastado do Brasil nos últimos 35 anos.

Brasília é hoje a terceira cidade mais urbanizada no país, com invasões em ritmo acelerado e cada vez mais crescente. Este crescimento nos preocupa e deve preocupar a todos, haja vista a complexidade de controlar uma expansão desordenada. Infelizmente, a pressão só cresce, a cada dia, em contraposição à capacidade limitada dos governos, de exercer seu importante dever de fiscalização.

Nossa cidade precisa ser vista e tratada como algo sagrado. Não seria a hora, então, de governantes e governados — o que inclui investidores e a geração mais jovem — refletir sobre o que disse Oscar Niemeyer, em 2008, ao jornal inglês The Guardian: "Brasília precisa dar um basta ao inchaço que vem sofrendo". E, como disse o mestre Lúcio Costa: "O Brasil é grande, deixem Brasília crescer tal como foi concebida, esparramada, bela, serena e única!"

O tempo urge. Não é possível ficar de braços cruzados, assistindo ao pior cenário possível, que é abrir as portas, com a aprovação da Luos, transformando bairros residenciais em bairros mistos; e do novo Pdot para a instalação do caos nestas terras que todos nós, em especial os pioneiros, temos ajudado a construir. Afinal, o sonho de Dom Bosco não pode se transformar, de uma hora para outra, em pesadelo. Nós não merecemos. Nossos filhos e netos não merecem. E, enquanto vida eu tiver, lutarei por isso.

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