Visão do Correio

O fundão do escárnio

Correio Braziliense
postado em 21/12/2021 06:00

No discurso, em público, eles aparecem sempre em lados opostos. Cada um numa extremidade do espectro político. Mas quando se trata de legislar em causa própria, ambos agem em sintonia e com igual desdém pelos cidadãos que dizem defender. Foi assim na última sexta-feira, quando parlamentares do Centrão e do PT se uniram para derrubar veto presidencial e destinar R$ 5,7 bilhões dos cofres públicos à campanha eleitoral de 2022. E o povo? "O povo que se exploda", como diria o deputado Justo Veríssimo, personagem criado pelo genial Chico Anysio. Síntese perfeita do comportamento típico de certos políticos brasileiros.

Na prática, o fundão bilionário coloca o Brasil no topo mundial do uso de dinheiro público destinado a financiamento de campanhas políticas, conforme estudo do Movimento Transparência Partidária, com base em dados de 25 das principais nações do mundo. E veja o absurdo da situação: os R$ 5,7 bilhões são recursos arrancados do bolso de todos nós. Em média, os brasileiros trabalham quase seis meses por ano apenas para pagar tributos e engordar os cofres públicos. Ou seja: esse dinheiro custou-nos um esforço tremendo. E poderia ter destinação mais nobre: a educação, a saúde e, por que não?, para matar a fome de milhões de famílias que, descobriu-se em meio à pandemia, estão à margem de qualquer programa social. Em vez disso, vai bancar a campanha eleitoral mais cara da história do país.

Agora, adivinhe quem são os políticos que mais devem se beneficiar com a farra às custas do dinheiro que pertence ao povo brasileiro? Sim, são eles, os extremos, à direita e à esquerda, que polarizam as intenções de voto, hoje, segundo institutos de pesquisa. De um lado, Bolsonaro e o Centrão. De outro, Lula e o PT. E o surreal é que tanto a campanha de Bolsonaro quanto a de Lula devem apresentar um e outro, na eleição, como "o pai dos pobres". Um devido ao Auxílio Brasil. O outro, ao Bolsa Família. Contudo, na hora do ataque aos recursos do erário, tanto a turma do Centrão quanto a do PT agiram com um descaramento de dar inveja a Justo Veríssimo.

De fato, política, no Brasil, não é para amadores. O veto presidencial reduzia o Fundo Eleitoral a R$ 2,1 bilhões. Mas, ao que tudo indica, o óbice à gastança inédita era só jogo de cena. Afinal, na hora da votação na Câmara, dos 50 deputados do PL, partido de Bolsonaro, apenas dois não se posicionaram a favor da derrubada. No PT, de Lula, 49 dos 51 parlamentares mandaram o veto para o espaço. No final, o placar na Casa ficou em 317 a 146. Entre os partidos em que a maioria se opôs ao fundão estão Podemos, Cidadania, Rede, Novo, PSol, PSL e PSDB, apesar de o líder da bancada tucana ter orientado o voto a favor da gastança exorbitante. No Senado, não foi diferente: o placar ficou em 53 a 21.

Em suma, além do imenso desgaste à imagem do Congresso Nacional, há, ainda, o risco de os R$ 5,7 bilhões que bancarão a farra eleitoral sem precedentes de 2022 fazerem falta em outra frente: a do combate ao coronavírus. Afinal, o mundo enfrenta a pior crise sanitária de todos os tempos. E o mais grave: diante de um cenário de incertezas, com as variantes delta e ômicron provocando muito medo mundo afora. Nos Estados Unidos e em países da Europa e da Ásia, os casos de infecções, internações graves e mortes por covid-19 voltaram a aumentar. E muitos governos anunciaram medidas duras, como lockdowns e restrições à entrada de estrangeiros, para tentar conter a escalada das novas cepas.

No Brasil, onde a pandemia já provocou mais de 20,2 milhões de casos e cerca de 618 mil mortes por covid-19, a delta, felizmente, não teve o mesmo impacto devastador observado em outros países. Quanto à ômicron, nos casos de infecções detectadas até agora, as pessoas sentiram apenas sintomas leves. Mas como se trata de uma variante altamente contagiosa e da qual ainda se sabe muito pouco, cientistas recomendam cautela. O recado foi seguido pela maioria das capitais brasileiras, onde as festas oficiais de réveillon acabaram suspensas. No Congresso, no entanto, sobrou oportunismo e faltou bom senso aos políticos que avalizaram o fundão.

 


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