Opinião

Artigo: Natal

JÚLIA PASSARINHO - Diretora Geral do Indi

Natal é tempo de reflexões, de despertar a solidariedade, provocar planejamentos e regar esperanças. Vivemos intensamente as exigências impostas em 2021. Desde suportar os sofrimentos pelas perdas irreparáveis, enfrentar sequelas orgânicas, emocionais causadas pelo covid, até pelas descobertas, inovações e renovações na superação das crises que se fizeram presentes. Tomamos decisões e fizemos escolhas por opções circunstanciais, mas precisamos lembrar que as consequências dessas escolhas são obrigatórias e precisam ser assumidas.

Fim de ano, fim de um ciclo. Fim de um ciclo é poder ressignificar o que foi vivido. É preciso ter coragem para enfrentarmos os desafios nesse processo de ressignificação. É preciso ter esperança, que na definição do dicionário é o sentimento de quem vê como possível a realização do que deseja. Ter esperança é não desistir na busca dessa possibilidade, é ir atrás, fazer por onde, fazer o que for possível. Esperança é a energia extra para seguirmos em frente.

É preciso que criemos memórias esperançosas para sermos mais úteis ao outro, à sociedade. É preciso termos consciência de que vivemos uma mudança de era. Nossa responsabilidade social é maior ainda quando assistimos ao mundo chafurdando no individualismo, no materialismo, num preocupante viver de uma realidade virtual sobreposta à realidade real. Usando a tecnologia cada vez mais de forma "emburrecedora," sob o ponto de vista da linguagem, cada vez mais isoladora dos contatos interpessoais e substituindo as inter-relações pelo uso intermediador dos aparelhos tecnológicos.

A mim me assusta assistir a mães amamentando seus bebês ao mesmo tempo em que usam o celular ou, pior ainda, apoiando no próprio seio o fatídico celular substituindo o contato olho no olho com a mãe, tão estruturante para bebê nessa fase. Também vemos famílias num restaurante todos juntos, porém separados, cada um com o celular, ocupados individualmente com aparelhos e jogos eletrônicos.

Nunca as crianças estiveram tão dominadas e dominando as mídias e os aplicativos sociais do tipo tik tok. Essas questões, além de preocupantes, são assustadoras, porém é claro que depende do homem a responsabilidade do que ele faz com o que a vida lhe apresenta. Logo, somos nós, pais, famílias, professores e adultos que devemos assumir o compromisso de oferecer às nossas crianças e jovens as melhores perspectivas de um amanhã mais saudável.

É preciso que fique claro que não estou negando ou combatendo a extrema importância da revolução tecnológica na evolução e conexão no mundo. Não alicio qualquer tipo de extremismo. Acredito e aplico a regra de fazer aprendizagens das situações difíceis e dolorosas que a vida muitas vezes nos impõe. Como dizia minha avó materna, "tudo que é demais sobra, e as sobras ficam sem lugar".

Porque é Natal, alimento a esperança, desejando profundamente que a humanidade possa se reencontrar como seres humanos, em algum momento. Espero que haja tempo para que essas crianças, jovens (e por que não dizer alguns adultos) possam reaprender a olhar nos olhos; a ouvir o outro com uma escuta atenta; a esperar a sua vez e a vez do outro; aprender a perder assim como aprender a vencer; lidar com as frustrações; dialogar construindo bons argumentos; respeitar a opinião alheia, enfim, reaprender a conviver. As crianças precisam de exemplos, afinal, "as palavras convencem, os exemplos arrastam".

Nós, adultos, responsáveis pelas crianças, precisamos ter coragem e consciência da urgência da humanização necessária nesta geração, para que ela esteja pronta na construção de uma sociedade mais justa. Desejo um feliz Natal e que 2022 nos encontre dispostos a superarmos nossas dificuldades ao nos reencontrarmos mais humanizados.

 

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