Opinião

Armando Castelar: Turbulências no pouso econômico global

Correio Braziliense
postado em 26/01/2022 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

ARMANDO CASTELAR - Professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Ibre/FGV

Neste e no próximo ano, a economia mundial vai passar por um processo de ajuste, conforme a pandemia perde centralidade. Segundo relatório do Banco Mundial divulgado este mês, o ajuste será marcado por forte desaceleração do crescimento e um aumento do hiato de renda entre economias desenvolvidas e emergentes, não se descartando o risco de que alguns países mais pobres necessitem reestruturar as dívidas (ver https://bit.ly/3nSMobG).

O Banco estima que o PIB mundial cresceu 5,5% em 2021, ritmo que projeta desaceleração para 4,1% em 2022 e 3,2% em 2023. O principal motivo para isso é o desmonte dos grandes programas de estímulo fiscal e monetário adotados em reação à pandemia. O banco também cita como travas ao crescimento os gargalos nas cadeias globais de produção, a corrosão inflacionária da renda e repiques pontuais da pandemia. Esses parecem especialmente relevantes para economias na Ásia, com destaque para a China, que têm adotado uma política de baixa tolerância com a doença, adotando restrições mais fortes à atividade econômica.

As significativas pressões inflacionárias, assim como a preocupação com a saúde das contas públicas, têm acelerado o desmonte dos programas de estímulo. Em termos globais, a estimativa é que a inflação mediana em 2021 tenha sido mais que o dobro da média do quinquênio anterior. Preços mais altos de alimentos e energia pesaram bastante, especialmente em economias emergentes, enquanto nos países avançados também se observou maior pressão nos preços de habitação.

As economias emergentes — Brasil, México e Rússia, por exemplo — saíram na frente, subindo as taxas de juros, mas, neste ano, o foco central recairá sobre os países desenvolvidos, em especial os EUA, onde a inflação em 2021 foi a mais alta em várias décadas e deve ter queda apenas moderada em 2022, conforme aumentem os repasses para os salários, em um mercado de trabalho já apertado.

Atualmente se trabalha com a perspectiva de que o Fed, o banco central americano, aumente quatro vezes os juros em 2022, em 0,25 ponto percentual por vez. Mas há um risco considerável de que isso seja pouco e que o aperto monetário seja mais forte. Este ainda contará com a anunciada intenção do Fed de vender parte da carteira de títulos públicos e de hipoteca acumulada em 2020-21. Isso se traduzirá em condições financeiras mais apertadas, pressionando o preço de títulos de maior risco, aí incluídos aqueles de vários países em desenvolvimento.

Esse é um dos motivos pelos quais se espera que estes, ao contrário das economias avançadas, tão cedo não consigam recuperar as perdas causadas pela pandemia, em termos do crescimento que deixou de ocorrer. Outros motivos são o atraso nos programas de vacinação, consequências de médio prazo mais severas da pandemia e estímulos fiscais e monetários menos significativos. Assim, a previsão é de que a maioria desses países simplesmente retorne ao padrão de crescimento de antes da covid-19, dessa forma tornando permanente a perda de crescimento ocorrida.

Para a América Latina e Caribe, o Banco Mundial projeta que o crescimento vai desacelerar de 6,7%, em 2021, para 2,6% este ano e 2,7% em 2023. Isso em função do aperto nas políticas fiscal e monetária, de condições ainda desfavoráveis de emprego e renda e de estímulos mais fracos vindos dos preços de commodities e da demanda externa, refletindo a desaceleração das economias avançadas. Também a desaceleração do crescimento chinês, de 8% em 2021 para 5,1% em 2022 e 5,3% em 2023, tende a pesar no desempenho da região. Apesar de ruim, essa projeção ainda parece otimista, pois considera uma expansão do PIB brasileiro de 1,4% em 2022 e 2,7% ano que vem, taxas bem acima das que preveem os analistas locais (altas de 0,3% e 1,7%, respectivamente, de acordo com o Boletim Focus).

O relatório dedica um capítulo aos preços em dólares de commodities, cuja forte alta em 2021 — 67% no caso do petróleo e 32% no das demais commodities — foi uma importante fonte de pressão inflacionária. O banco prevê que esses preços seguirão em patamar elevado no próximo biênio, mas que eles podem flutuar bastante, complicando ainda mais a gestão da política econômica nos países que exportam esses produtos.

O banco lista ainda uma série de riscos a esse cenário, a maioria deles negativos. Um deles chama a atenção: o derivado de mudanças climáticas, um tema que deve ganhar espaço na análise macroeconômica nos próximos anos.

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