OPINIÃO

Artigo: "Floresta amazônica ou Mata Atlântica"

Correio Braziliense
postado em 30/01/2022 06:00

Por JOAQUIM FALCÃO - Membro da Academia Brasileira de Letras, é professor de direito constitucional e conselheiro da Transparência Internacional

Nem o Brasil nem ninguém pode enfrentar todos os seus problemas ao mesmo tempo. É preciso análise criteriosa, noção de urgência e definição de prioridades. É preciso escolher. Ou seja, incluir e excluir.

O mundo todo, o Brasil também, entende que a preservação do bioma amazônico é indispensável para a sobrevivência do planeta. De todos. São poucos os isolacionistas que pensam o contrário. Peço, porém, atenção a estes dados.

O Brasil é o país mais urbanizado do mundo. Ou, pelo menos, um dos mais urbanizados. Entre o rural e urbano, somos urbanos. Cerca de 87%, segundo o Banco Mundial. Essa urbanização atinge 183 milhões de brasileiros. E, devido à ausência de políticas urbanísticas e à pobreza, como bem lembra o arquiteto-urbanista Washington Fajardo, um dos maiores especialistas mundiais sobre metrópoles, esse crescimento tem se dado por meio da periferização.

A periferização, em geral, é uma franja, círculo urbano depauperado de condomínios, favelas, habitações de risco que se expandem pelo chão do Brasil. Causando, não raramente, degradação e graves danos ambientais.

Retira, inclusive, a alegria das cidades. Da convivência. Rouba a solidariedade e a comunidade. Instala-se o medo, a insegurança, a violência, a doença, a droga.

Segundo o WRI, a Mata Atlântica é um bioma vital para o Brasil. "São suas florestas que abastecem de água, fornecem alimentos e filtram o ar das regiões mais populosas do país. Inclusive as megalópoles Rio de Janeiro e São Paulo."

Daí um dilema real: onde devemos investir nossos escassos recursos? No bioma amazônico ou da Mata Atlântica? O bioma amazônico é fundamental. Mas a Mata Atlântica é prioridade. Urgência. A maior mata urbana do mundo, diria Tom Jobim.

Os dados do secretário de Meio Ambiente, Eduardo Cavaliere, recém-publicados na edição 56 da Revista Interesse Nacional, são impressionantes.

Do 1,3 milhão de km² da floresta, restam apenas 12% de mata original. Entre 2019 e 2020, 36 campos de futebol de área foram devastados por dia. Ao mesmo tempo em que os holofotes mundiais enxergavam o desastre ocorrido na Amazônia.

Do ponto de vista demográfico, a mata atlântica abriga 145 milhões de brasileiros e 70% do PIB nacional. É onde vive e produz a maioria do Brasil.

Quanto à fauna, abriga mais de 2 mil espécies de animais conhecidos. Quanto à flora, passa das 20 mil. Restaurar 15% de sua área evitaria 60% das potenciais extinções e sequestraria 30% de gás carbônico emitido desde os tempos da Revolução Industrial.

Destaca ainda o secretário que a Mata Atlântica é base fundamental de nossa história. Foi cenário de uma economia baseada em extração de ouro e pau-brasil, pecuária e no plantio de cana e café. O futuro pode reservar à mata atlântica uma economia lastreada em créditos de carbono, serviços ambientais e turismo sustentável.

Tudo sugere que a luta é comum. O brasileiro, pelas pesquisas, está muito consciente da importância do meio ambiente para o seu futuro. Mas esse futuro é custoso e difícil. O ideal é que houvesse uma repartição de tarefas entre o Brasil e os países que, mais do que nunca, precisam da preservação do bioma amazônico. Mesmo porque, imprudentemente ou por interesses econômicos nacionalistas, já destruíram grande parte das próprias reservas e são insuficientes.

Nos últimos anos, segundo a Revista Science, existe uma recuperação de partes da Mata Atlântica, mas por meio de reflorestamentos biologicamente mais pobres do que a cobertura original. Predominantemente commodities agrícolas: eucaliptos, cana, soja, milho e café.

A prioridade da Mata Atlântica, vital para o Brasil, para o nosso desenvolvimento sustentável, não pode ficar longe dos bons debates do processo eleitoral. Não apenas um debate ambiental. É sobretudo jurídico e econômico.

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