Opinião

Crédito continuará como protagonista do comércio

CARLOS THADEU DE FREITAS GOMES - Economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC)

O ano de 2020 trouxe grandes dificuldades devido à pandemia da covid-19, com o setor terciário sofrendo com o fechamento dos estabelecimentos não essenciais. No entanto, a vacinação está amenizando as perdas, garantindo maior flexibilização das medidas de isolamento em 2021, com recuperação econômica gradual e persistente durante o ano.

Ao decorrer de 2021, o mundo passou a sofrer com as consequências da demanda reprimida pela pandemia, com um processo inflacionário mais acentuado. No entanto, é importante considerar que a inflação já começou a arrefecer nos seus últimos números, com alguns grupos relevantes também desacelerando, como alimentos, habitação e transportes. Com isso, o aumento nos juros em 2022 não deve ser tão intenso.

Importante ressaltar que uma alta muito forte terá o efeito contrário e vai frear o crescimento econômico. Caso os juros cheguem perto de 12% e a inflação em torno de 6%, os juros reais em 2022 tendem a ficar no patamar de 6%, inibindo qualquer potencial de crescimento da atividade econômica.

O Banco Central precisou iniciar um processo de elevação da taxa Selic para amenizar os efeitos inflacionários, aumentando os juros de 2%, no início do ano, para 9,25%, no final de 2021. Entretanto, essas altas não parecem estar interferindo no mercado de crédito, uma vez que 75,6% das famílias relataram estarem endividadas em novembro, o maior nível histórico, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Com o mercado de trabalho afetado pela pandemia, muitos brasileiros passaram a recorrer mais intensamente ao crédito para manterem o padrão de consumo. Com isso, observou-se esse nível recorde no endividamento das famílias em 2021. Esse aumento pode ser considerado saudável, pois ajuda a aquecer a economia, e não mostrou efeitos controversos, uma vez que a inadimplência permanece sob controle, com as famílias conseguindo arcar com seus gastos.

Isso porque, ao longo de 2021, pôde-se perceber a recuperação do emprego, com quase 3 milhões de novas vagas geradas no ano até novembro. O que é corroborado pela taxa de desemprego de 12,1% no trimestre terminado em outubro de 2021, o menor nível desde o trimestre terminado em fevereiro de 2020, o início da pandemia.

O efeito positivo da manutenção da inadimplência fez com que os spreads bancários não acompanhassem essa escalada dos juros junto com o aumento do saldo do crédito. Assim, o sistema financeiro garante mais um componente de estabilidade.

Com esses avanços econômicos, o comércio vem se recuperando, com o Natal, feriado mais importante para o setor, tendo faturamento esperado 9,8% acima do resultado de 2020. Com menos feriados em dias úteis na comparação com 2021, a estimativa é de que o comércio tenha prejuízos 22% menores neste ano. Caso se confirme, será a menor perda desde 2014.

Os empresários também percebem um momento econômico mais favorável, segundo o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec), apurado pela CNC. O indicador geral apresentou crescimento de 0,3% em dezembro, acumulando elevação de 10,9% em 2021. Os componentes que representam as Intenções de Investimento e Expectativas do Empresário do Comércio também mostraram evolução.

Não se pode negar que o avanço da inflação representa dificuldade no poder de compra da sociedade, mas, a amenização nesse movimento auxiliará a recuperação. A nova variante Ômicron também arrefeceu as expectativas em relação ao próximo ano, mas elas continuam positivas, apesar de menores. As eleições serão mais um desafio econômico para 2022, pois geram grande incerteza, o que leva à restrição no consumo.

O apoio do consumo financiado pelo crédito vai continuar sempre importante para aquecer a economia, com o Auxílio Brasil dando confiança aos consumidores para tomarem crédito e cumprirem com as obrigações, garantindo rendimentos para os mais necessitados. Este ano, o crédito deve continuar em expansão, podendo crescer 8%, enquanto, em 2021, a estimativa é que tenha crescido acima dos 13%.

Os fatores de recuperação de 2021 devem permanecer em 2022, com a vacinação avançando, assim como a maior movimentação da população, o que deve apoiar a tendência positiva do comércio. As vendas do varejo devem crescer cerca de 3% em 2022, depois de avançarem 5% em 2021. Mesmo com a desaceleração, esse crescimento é favorável, considerando os desafios que nos esperam ao longo deste ano.

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