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Artigo: Fosfosol é bom para a memória

Correio Braziliense
postado em 17/03/2022 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

OTÁVIO SANTANA DO RÊGO BARROS - General de Divisão da Reserva

Você se recorda de quem teve a honra de receber o seu voto nas últimas eleições? Provavelmente, o candidato a presidente você se lembra. Esse, a gente nunca se esquece. Os outros, deixamos sempre para lá. Mas, se você é daqueles cidadãos com "C" maiúsculo há de saber. Parabéns! Entretanto, você acompanha a trajetória do seu representante? Sabe quantos e quais os projetos que ele elaborou ou defendeu?

Quando se trata de cargos para o Executivo torna-se mais fácil essa avaliação. A imprensa, mesmo que algumas vezes esteja enviesada, ajuda nessa tarefa. Destaca os pontos, critica, ilumina os desafios, aponta soluções. Você também pode sentir no dia a dia os benefícios ou prejuízos da gestão de seu prefeito, governador ou mesmo presidente. Um esgoto a céu aberto que é fechado ou se mantém vazando, uma estrada que encurta o seu trajeto para o trabalho ou se mantém esburacada, inflação que foi bem administrada e lhe poupa salário ou a que corrói seus parcos recursos.

No Brasil, a memória do eleitor é curta. Retorna, quando muito, até o início do ano eleitoral. Os candidatos e seus marqueteiros sabem disso. A propaganda eleitoral, com lindas imagens e propostas maravilhosas, também faz a sua parte. O instrumento da reeleição é pernicioso também por isso.

O sujeito passa três anos sem dizer a que veio, despreocupado de aprofundar os problemas e encontrar as saídas e, no último ano, dispara a gastar dinheiro público irresponsavelmente que os cofres não possuem, viajar para inaugurar pinguela inaugurada e propor novos e maravilhosos projetos caso seja reeleito.

Talvez a nossa Constituição devesse ser mudada. Uma proposta de emenda que definisse o mandato em apenas dois anos, sem reeleição: o primeiro ano para o eleito passear (de moto, jet-ski, avião, bicicleta, cavalo, seja lá o que lhe aprouver), fazer churrasco, jogar uma pelada. Não precisava apresentar nenhum projeto, proposta, nada. Deixava uma pessoa de sua confiança cuidando dos afazeres nos palácios e pagando o cartão corporativo com a seguinte ordem: não mexa em nada de importante.

O segundo ano, aí ele ia trabalhar. Conceder os auxílios sociais que entendesse necessários, privatizar ou nacionalizar as empresas da infraestrutura crítica segundo sua crença econômica, construir uma diplomacia equilibrada, reequipar Forças Armadas, estimular a educação, aumentar o número de hospitais, criar empregos, incentivar a ciência & tecnologia, dialogar com os outros Poderes etc. Seria uma economia colossal do dinheiro público, nos pouparia desgastar as estruturas de poder, preservaria a nossa paciência cidadã e abriria a possibilidade de finalmente sermos o país do presente.

Caros leitores, perdão se o texto lhes soe como chacota, é mesmo. Mas não resisti a escrevê-lo, estimulado pelo que vejo nas propagandas de partidos políticos divulgadas nos meios de comunicação. Nas rodas de bar. No trabalho. Nas reuniões familiares de final de semana. Nos embates em grupos de WhatsApp — esses um caso a ser estudado pela moderna psicologia.

Bilhões de reais foram desviados dos cofres públicos e das estatais a eles vinculados e ninguém se recorda, ou se recorda e não considera importante.

Mais de meio milhão de pessoas morreram em face da covid-19, outros tantos ainda permanecem sequelados e o assunto já passa ao largo, como pesadelo a ser esquecido, em justificativa à má gestão.

Corrupção é palavra deletada do dicionário, já que o acusado, mesmo pego com dinheiro escondido em lugares íntimos, pode alegar desconhecer a sua origem. Mentira é só uma questão de ponto de vista e sempre há a possibilidade de desdizer o que disse para dizê-lo novamente amanhã sem ruborizar. Fanfarronice como estilo de vida é utilizada para transformar o candidato em "povo". Jânio Quadros era petiz (expressão para iniciantes em determinados esportes) quando tomou a vassoura como símbolo político. De chapéu de coro e cachaça à farofa com galinha, hoje tudo vale.

Fosfosol era um remédio que minha avó nos obrigava a tomar para melhorar a memória e irmos bem na escola. Não sei se funcionou, mas fui aluno razoável e me lembro bem em quem votei nas últimas eleições. Neles não voto mais.

Paz e bem!

 

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