Editorial

Visão do Correio: Dois Brasis no atropelo das eleições

Correio Braziliense
postado em 21/03/2022 06:00

A disputa à sucessão no Palácio do Planalto começa a ser travada num palco que parece dividir o país em dois Brasis sem conexão alguma. De um lado, está o Brasil que é cenário de um pacote de bondades de R$ 150 bilhões, fortuna definida coma "sobra de caixa acumulada", enquanto faltam recursos para pesquisas cruciais nas universidades e verbas são cortadas num atendimento considerado extremamente precário aos aposentados e para o combate ao desmatamento. O outro Brasil é o país do arrocho monetário, usado como tentativa de domar a inflação, do crédito caro que sacrifica os investimentos produtivos e impede a geração de emprego e renda.

As principais notícias da última semana não comungam, pelo contrário, se estranham. O mesmo governo que libera FGTS, antecipa 13º salário de aposentados, facilita empréstimos consignados e crédito para microempreendedores, eleva a taxa básica de juros — aquela que remunera os títulos públicos no mercado financeiro e serve de referência para as operações nos bancos e no comércio — de 10,75% para 11,75% ao ano. O Banco Central também sinalizou que a Selic pode chegar, em maio, a 12,75% ao ano.

Para complicar um pouco mais a situação desse Brasil do aperto monetário, o Federal Reserve, o Banco Central americano, determinou, na quarta-feira, a primeira elevação dos juros americanos desde 2018 de 0,25 ponto percentual. O motivo da alta, que de acordo com o FED continuará até o fim do ano e pode se repetir em 2023, é idêntico à necessidade brasileira de controle da inflação, mas as diferenças nos efeitos da medida são profundas e impiedosas, claro, com o Brasil.

Os juros mais atrativos na nação de Joe Biden costumam promover uma debandada de investidores de países como o Brasil e vão levar à valorização do dólar frente ao real. Significa mais fôlego de preços cotados em dólar, como os dos combustíveis e de produtos que demandam matéria-prima produzida no exterior. Importante, ainda, lembrar que o real iniciou trajetória de alta no começo do ano, com o ingresso de dinheiro na bolsa de valores, como ocorreu em outros países avaliados como baratos e com economia muito associada à produção de commodities, que encareceram no mercado internacional.

Como vão se comportar os investimentos produtivos e de especulação na bolsa de valores, agora, são dois grandes desafios que, por mais empenhados que estejam os candidatos às eleições de outubro, não poderão ser desconsiderados nem devem passar despercebidos dos eleitores mais informados.

No ano passado, o Brasil derrapou e perdeu preferência entre as empresas especializadas em captação de investimentos. Desceu da terceira posição do ranking para a 10ª, em 2021. Somente 5% dos CEOs que atendem investidores pelo mundo passaram a considerar o Brasil estratégico, com base em estudo feito pela consultoria PwC. Os Estados Unidos lideram a relação dos mais preferidos, seguidos da China e da Alemanha. A perda de relevância brasileira é reflexo de três fatores: baixa expectativa de crescimento econômico, ambiente político e desprezo com a preservação do meio ambiente.

Os rumos da economia brasileira passaram a representar, da mesma forma, um risco para os investidores em fundos de venture capital e startups, incluindo-se nesse cenário os juros altos tanto no Brasil como nos Estados Unidos e em outros países. As pequenas empresas de tecnologia e inovação com potencial de crescimento e de ganhos em escala foram alvo de captação recorde no ano passado. Há estimativas de que o Brasil captou recursos superiores a R$ 50 bilhões para esse setor. O número das chamadas novas empresas unicórnios, com avaliação igual ou superior a US$ 1 bilhão, teria chegado a uma dezena. Não se espera o mesmo dinamismo em 2022.

A euforia com os investimentos estrangeiros diretos, por sua vez, perdeu sentido. Em 2021, eles somaram US$ 46,441 bilhões nas estimativas do Banco Central, aumento de 22,9% na comparação com 2020, embora sem ter retomado o nível anterior à pandemia de covid-19. A autoridade monetária contava com US$ 55 bilhões em 2022, mas não se imaginava tantas reviravoltas neste ano.

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