Miguel Reale

Artigo: Personalidade plural

Correio Braziliense
postado em 31/03/2022 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

RUY ALTENFELDER - Advogado e presidente da Academia Paulista de Letras Jurídicas (APLJ)

Tive o privilégio de conviver com o saudoso professor Miguel Reale desde a década de 1970, ele, como presidente do Conselho de Administração das empresas que compunham o Grupo Industrial Moinho Santista (hoje Bunge Brasil) e também presidente da Fundação Moinho Santista. Aprendi a admirar o jurista, o filósofo, o professor, o político, o poeta, o escritor, o "paterfamiliae" e o administrador.

O professor Reale nos dava lições preciosas ensinando-nos que a riqueza não está na quantidade de bens, mas no menor número de necessidades. Incentivava sempre o exercício da cidadania dizendo que na natureza quando um ciclo fechado de dar e receber se desequilibra, logo vem a morte e a destruição, e assim acontece também na sociedade.

Vem à mente pensamento de Bertrand de Jouvenal: "Uma sociedade de carneiros deve com o tempo produzir um governo de lobos".

Ensinávamo-nos que os verdadeiros líderes são aqueles que resumem o sentimento geral da comunidade; que simbolizam, legitimam e fortalecem o comportamento de acordo com esse sentimento; que permitem que os valores conscientes compartilhados pela comunidade surjam, cresçam e sejam transmitidos de geração em geração; que permitem que aconteça o que está querendo acontecer. Inobstante enfatizava, sempre, que o mundo das palavras e das ideias sempre foi infinitamente mais intrigante do que a mecânica dos negócios.

Nas nove décadas de sua profícua existência o professor Miguel Reale destacou-se como administrador e gestor criativo, competente e enérgico.

Em 1942 Miguel Reale foi nomeado membro do Conselho Administrativo do Estado, cargo que exerceu até 1944. Exerceu a árdua função ao lado de homens notáveis como Goffredo Teixeira da Silva Telles, Cyrillo Junior, José Adriano Marrey, Arthur Withaker, César Costa e Antonio Feliciano.

O administrador se fez presente ao imprimir dinamismo à instituição integrada pelo Estado e cerca de 300 municípios.

Em 1943, por meio de uma alteração legislativa, fez com que a Universidade de São Paulo ganhasse uma autonomia que não tinha. Até então, o reitor era vinculado ao secretário de Educação do Estado. Com a alteração, a USP foi transformada numa autarquia diretamente ligada ao governador. Passou a gozar de autonomia.

Na Reitoria da Universidade de São Paulo revelou seus dotes de administrador. Ao assumi-la, em 1949, instalou os primeiros institutos oficiais de ensino superior no interior do Estado, a começar pela Faculdade de medicina de Ribeirão Preto. Implantou o curso noturno e a igualdade de vencimentos dos professores. Partindo do princípio de que, no Brasil, a universidade não pode se limitar a dar aulas e realizar conferências e cursos, passou a promover serviços externos, de natureza cultural.

Em 1949 fundou o Instituto Brasileiro de Filosofia, que congrega todos os pensadores brasileiros e edita a Revista Brasileira de Filosofia. Administrou a Entidade com dedicação e competência, seguindo a regra de ouro estabelecida pela figura ímpar do Presidente campos Sales: Não podemos deliberar uma só despesa, nem tolerar as que sejam, adiáveis, antes de termos regulado as nossas contas".

Planejador estratégico, constituiu um legado destinado à Fundação Nuce e Miguel Reale, com o objetivo de perpetuar os estudos da filosofia e a sustentação do instituto e da Revista Brasileira de Filosofia. Devo destacar também que, em sua casa, dividia as responsabilidades da administração do lar com sua querida e saudosa esposa dona Nuce Reale.

Na Fundação Moinho Santista, o professor Miguel Reale presidiu seu Conselho Administrativo. Além de aperfeiçoar o estatuto da entidade, modernizou o regulamento do prêmio, que tem por objetivo incentivar o desenvolvimento das ciências, letras e artes, a ponto de receber elogios da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e da Fundação Nobel.

Na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, também se fez presente a influência do professor Miguel Reale. Em 1988, sugeriu a criação de um núcleo de pensamento das Ciências Políticas e Sociais. Nascia assim o Conselho Superior de Estudos Avançados (Consea), no âmbito do Instituto Roberto Simonsen, do qual, desde sua constituição foi um dos mais respeitados integrantes. Por tudo que foi exposto, nada mais precisa a citação "personalidade plural" criada pelo professor Tércio Sampaio Junior para apresentar Miguel Reale na cerimônia em que lhe foi outorgado o título de professor emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. E a expressão do professor Celso Lafer proferida na abertura do seminário: "O professor Miguel Reale nunca foi um homem de uma nota só".

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