» Sr. Redator

Correio Braziliense
postado em 09/04/2022 00:01

Ciranda de pedra

Cabe à educação nos ensinar a ter a consciência de conjunto, de pertencimento. Como núcleo político, a escola não pode ser apenas um laboratório de formação de mão de obra especializada para o mercado de trabalho. A escola tem de ser um lugar onde as pessoas se formem para a cidadania, combinando direitos humanos, pró-aperfeiçoamento da democracia e cultura do cuidado. Reconhecer as diferenças não significa exaltar as desigualdades. Representa, sobretudo, reconhecer a expressão da alteridade. A vida ganha sentido com a luz do congraçamento. Quando a regra é vigiar e punir, temos como exceção zelar e compreender, o que significa relações em desarmonia, com consequências negativas. Posturas egocêntricas, autoritárias e fundamentalistas geram a apologia da certeza absoluta. Com a humanidade desligada da humildade, impera a arrogância como fio condutor do poder contaminado à prepotência. A marginalização da ética representa não só o triunfo da corrupção, mas também a vitória do moralismo trivial. Em Ciranda de pedra (1954), qualquer discussão séria que se faça entre ética e moral nas relações humanas não pode ignorar a advertência lançada pela escritora Lygia Fagundes Telles (1923-2022): "Não separe com tanta precisão os heróis dos vilões, cada qual de um lado, tudo muito bonitinho como nas experiências de química. Não há gente completamente boa nem gente completamente má, está tudo misturado e a separação é impossível. O mal está no próprio gênero humano, ninguém presta. Às vezes, a gente melhora. Mas passa... E que interessa o castigo ou o prêmio? Tudo muda tanto que a pessoa que pecou na véspera já não é a mesma a ser punida no dia seguinte".

Marcos Fabrício Lopes da Silva,

Asa Norte

Nervosia

Muita coisa pode ser dita sobre a eleição presidencial que chega daqui a seis meses, mas um dia pouquíssimos pontos em que todos estariam de acordo, talvez o único, é que nunca se viu na história deste país uma disputa política que deixasse tanta gente à beira de um ataque de nervos. Um ou outro dinossauro que estava vivo nas eleições de Getúlio Vargas, em 1950, Juscelino Kubitschek, em 1955, ou Jânio Quadros, em 1960, certamente dirá: não, não me lembro de ninguém, à época, que tenha tido algum surto de neurastenia tão desesperado por causa de eleição como esses que a gente vê hoje todo santo dia. Depois disso, houve sete eleições seguidas para presidente, a que elegeu Fernando Collor, as duas de FHC e de Lula e, enfim as duas de Dilma Rousseff. O fato é que estamos vivendo momentos sem precedentes de "nervosia", palavra de uso antigo, mas muito precisa, para descrever essa atmosfera de irritabilidade, impaciência e hostilidade geral que se levanta hoje em dia a cada vez que o cidadão diz que vai votar em Bolsonaro ou Lula. Em geral, as brigas de campanha costumam limitar-se aos próprios candidatos. Hoje, emigraram com mala e cuia para o meio de boa parte dos eleitores. Lulistas são chamados de esquerdopatas. Quem vota em Bolsonaro é fascista, embora 80% dos que fazem essa acusação não tenham a menor ideia do que estão falando. Não optar nem por um nem por outro, então, não seria uma defesa? Esqueça. Nesse caso você será acusado de "isentão", e muita gente fica irritadíssima quando é chamada de "isentão". Aí vira nervosia pura.

Renato Mendes Prestes,

Águas Claras

Avaliação

Em 4 de maio de 2014, escrevi nesta coluna: "Da mesma forma que um trabalhador da iniciativa privada ou um servidor público, para assumir o posto, é submetido a avaliações de sanidade física e mental, além de ter a vida pregressa analisada, por muito maior razão, os ocupantes de cargos eletivos deveriam passar por uma avaliação mais rigorosa ainda. Quantos loucos, dementes, insanos, psicopatas, amnésicos e criminosos causam enormes danos à nação por não terem condições mínimas para exercer o mandato? Isso, sem falar nos analfabetos funcionais e nos mentirosos compulsivos". A preocupação continua atualíssima.

Humberto Pellizzaro,

Asa Norte

Roubalheira

Nos últimos anos, tornou-se rotineiro a imprensa, de modo geral, anunciar as roubalheiras nas três esferas do país: municipais, estaduais e federais. Para quem não sabe, existem os órgãos de controles internos e externos que custam uma fortuna para fiscalizar os bons usos e as aplicações dos recursos públicos nas três instâncias administrativas. Não é isso que se vê realmente. A culpa, em grande parte, é dos governantes que odeiam os sistemas de controles. Até início do governo Fernando Henrique Cardoso existia, em cada ministério, uma Secretaria de Controle Interno. Mas fizeram um desmonte geral, ficando um representante de Controle interno nomeado pela Fazenda. Nos governos petistas, os secretários de controle passaram a ser nomeados pelo ministro da pasta respectiva. Aí irmão, abriu-se as porteiras à aboiada... Adeus, controles. Fazer o quê?

José Bonifácio,

Plano Piloto

Tags

CONTINUE LENDO SOBRE