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Análise: Biotecnologia além da fronteira médica

Correio Braziliense
postado em 14/04/2022 06:00
 (crédito: Caio Gomez)
(crédito: Caio Gomez)

HUGO SIGMAN - Médico psiquiatra, fundador do Grupo Insud

A história das revoluções industriais é bem conhecida. Resumindo: a primeira revolução industrial foi a da máquina a vapor; a segunda, a da eletricidade e a terceira, a das comunicações. A quarta revolução é a que estamos atravessando agora, e não se trata apenas de tecnologia de dados e internet das coisas.

Trata-se, nas palavras de quem cunhou o conceito, o fundador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab, da "fusão de tecnologias que estão apagando as linhas entre físico, digital e biológico".

A biotecnologia é parte vital deste processo. Nas últimas décadas, avançou mais do que qualquer outra área científica e tecnológica. Para a América Latina, esse campo de ação que revoluciona a produção de alimentos, materiais, energia e tratamentos médicos, representa uma oportunidade única.

A biotecnologia é usada, praticamente, desde o começo da história da humanidade. Podemos defini-la como a utilização de agentes biológicos (bactérias, leveduras, fungos e vírus) para criar produtos novos ou modificar os que existem. O vinho, cuja origem os antropólogos situam no neolítico, é resultado do processo de fermentação produzida pela ação metabólica das leveduras, ou seja, é um processo biotecnológico. O iogurte, a cerveja ou os antibióticos também são exemplos de desenvolvimentos biotecnológicos.

A biotecnologia moderna vai além, já que permite, por meio da engenharia, transferir genes de um organismo para outro e, assim, modificar células ou bactérias para que comecem a produzir algo que antes não produziam.

Uma parte da opinião pública desconfia de algumas dessas inovações, argumentando que produzem efeitos negativos sobre a saúde, o ambiente e a economia. No entanto, há nesta desconfiança um dado chamativo: onde mais se observa essa resistência é no âmbito da agricultura, ou seja, na produção de alimentos, sobretudo com relação aos cultivos transgênicos.

A medicina, por outro lado, está desenvolvendo, há muitos anos, uma grande quantidade de medicamentos biotecnológicos, aplicados com enorme êxito e que ninguém questiona, para tratar anemia, câncer, artrite reumatoide, osteoporoses, doenças raras, etc.

Apesar da resistência, a experiência demonstra que a aplicação de desenvolvimentos biotecnológicos na agricultura deu grandes resultados. Permite produzir mais alimentos na mesma superfície, gerar produtos mais nutritivos e, em alguns casos, utilizar menos agroquímicos e fertilizantes. Em um mundo em que a população cresce, a demanda por alimentos será maior e a biotecnologia contribui para satisfazer essa necessidade cuidando do meio ambiente.

O plantio direto, a técnica associada ao uso de sementes geneticamente modificadas, reduz o impacto ambiental da agricultura tradicional e contribui para preservar os solos.

Na América Latina, a biotecnologia tem mostrado um grande potencial para melhorar a eficiência da agricultura. A primeira década do século 21, a de maior crescimento da região desde os anos 1970, se explica, entre outras coisas, pela conjunção dos altos preços das matérias-primas com a incorporação massiva de tecnologia à produção agropecuária.

O desafio para a América Latina e, em particular para os países com setores agropecuários dinâmicos e competitivos como Argentina e Brasil, agora passa também pela capacidade de gerar desenvolvimentos biotecnológicos próprios. Há uma interessante quantidade de projetos com boas possibilidades de prosperar, que permitiriam substituir importações e criar empregos.

A pesar de que, na maioria dos casos, esses projetos ainda precisam percorrer um longo caminho para se consolidarem em escala sustentável, o potencial é enorme.

Caso digno de nota é o desenvolvimento da soja e do trigo tolerantes à seca. Trata-se do HB4, que permite que cultivos sobrevivam melhor a solos salinos e superem períodos de seca com menor perda de desempenho.

Para que esse tipo de iniciativa avance, o primeiro desafio das empresas de base biotecnológica é obter financiamento para ter acesso à infraestrutura, aos insumos e a equipes profissionais com as quais possa conseguir um produto disruptivo e com possibilidades de chegar ao mercado. É essencial aproximar os cientistas (muitos instalados em universidades ou instituições públicas) ao setor privado, que conta com os recursos, mas também com a experiência de mercado.

Os fundos de investimentos, mais dispostos a assumirem riscos do que os empresários tradicionais, são uma ferramenta nos momentos iniciais. O Estado é vital para criar as condições adequadas para que esses projetos prosperem mediante regulação previsível, políticas públicas setoriais eficientes e bem focadas e estratégias para estimular o setor, começando pela formação de talentos em disciplinas como biologia, química, genômica, ciência de dados e bioinformática.

A América Latina estará na linha de frente da biotecnologia mundial? É possível ver o potencial, o empenho e o desejo e o bom nível dos profissionais, a solidez da base empresarial em alguns setores estratégicos e uma consciência, cada vez maior, sobre a importância da biotecnologia para o futuro.

Agora, a questão é aumentar os recursos em pesquisa e desenvolvimento, tanto públicos quanto privados, e debater o tema de forma transparente, para construir consensos e estar à altura de uma oportunidade que não vai durar para sempre.

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