ELEIÇÕES

Artigo: Esperteza ou incompetência

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF - Jornalista (andregustavo10@terra.com.br)

O ex-governador de São Paulo João Doria iniciou sua caminhada em direção ao Palácio do Planalto na pequena cidade de Rio de Contas, no centro da Bahia, a mais de mil metros de altitude, nas proximidades de Brumado e Caetité — hoje, um exemplo de geração de energia eólica. A pequena vila se situa no alto da Serra do Tromba. O Rio de Contas atravessa a cidade e as montanhas nos seus 620 quilômetros até desaguar no oceano Atlântico, perto de Itacaré, nas proximidades de Ilhéus.

João Dória, candidato que a partir de agora será conhecido apenas como João, homenageou seu pai, nascido naquela cidade. Depois migrou para São Paulo, onde entrou para a política. Mas teve seu mandato de deputado federal cassado em 1964 e foi obrigado a se refugiar no exílio. João teve que trabalhar cedo, vencer a adversidade até amealhar boa fortuna. Hoje, é um homem rico. E, aparentemente, esperto. Entrou no PSDB com auxílio de Mário Covas e foi afastando adversários, no dizer do conterrâneo de seu pai, "metendo o cotovelo e abrindo caminho", como se faz na praça Castro Alves atrás do trio elétrico.

Ele criou boa confusão há duas semanas com sua renúncia e posterior renúncia da renúncia, embolou o jogo sucessório no estado de São Paulo, mas conseguiu permanecer em evidência. Ocupou a primeira página dos jornais durante quase toda a semana. Ele é um mestre em publicidade e propaganda. É o arranco final, quase desesperado, de um candidato que, apesar de vir de São Paulo, o mais populoso e rico estado brasileiro, não avança além de três por cento na preferência dos eleitores. É aí que mora o problema.

O presidente Bolsonaro fala muito sobre assuntos digamos formais, mas cala diante de ganhos efetivos. Seu partido, o PL, quase dobrou de tamanho na Câmara dos Deputados ao longo do mês de março. A janela de transferência fechou e revelou que o partido do presidente chegou ao fim do mês com 73 deputados. Antes tinha 42. Os partidos informalmente coligados, irmanados nos mesmos propósitos, também cresceram muito. O PP chegou a 49 deputados e o Republicanos, partido ligado à Igreja Universal, foi a 45 deputados. Os três juntos deverão fazer uma bancada numerosa e operosa. A base do governo está garantida neste final de mandato.

Nas eleições de outubro, é possível que essas bancadas aumentem ainda mais, porque o partido terá candidatos com boas possibilidades em quase todos os estados. O crescimento do PL foi impressionante também nos estados. Em São Paulo, o partido tinha seis representantes na Assembleia Legislativa. Passou a 19. No Rio de Janeiro tinha um, foi para 14. Em Minas Gerais, tinha dois e foi para nove. No Distrito Federal, tinha dois e cresceu para quatro. No total, tinha 106 deputados estaduais e passou para 130. É um crescimento notável. O partido definiu 13 pré-candidatos a governador. Como é comum em grandes partidos, terá problemas internos para solucionar as disputas locais.

Na Bahia, o presidente Bolsonaro quer a candidatura do seu ministro João Roma. O ex-prefeito de Salvador ACM Neto preferia fazer acordo com o indicado de Lula e com o MDB do notório Geddel Vieira Lima. Ele anunciou apoio ao candidato do PT. Alguém vai administrar essa confusão. Depois que Jaques Wagner desistiu de ser candidato ao governo do estado, a candidatura de ACM Neto passou a ser considerada imbatível. Mas eleição só é ganha depois que as urnas apontam o vencedor.

Há problema semelhante em Goiás. Nos próximos meses, essas disputas paroquiais vão ocupar os analistas políticos, porque os candidatos montarão seus respectivos palanques nos estados. É um trabalho de costura lento, difícil e complicado para atender egos feridos, ciúmes profundos e interesses não respeitados. No final, aparecem os candidatos. O cenário eleitoral ainda contempla Bolsonaro versus Lula. Em terceiro lugar, agora, Ciro Gomes.

Impressionante é a queda de rendimento do candidato do PT. Ele tem se mostrado indeciso e inábil quando faz declarações sobre aborto e classe média absolutamente fora da hora. Sergio Moro, vítima de um ataque de amadorismo inexplicável, jogou fora seu patrimônio de quase 10% da preferência dos eleitores. Virou fumaça. Ainda há esperança de surgir algum tipo de acordo entre Simone Tebet, Eduardo Leite e alguém mais que queira somar força à chamada terceira via.

O confronto entre Lula e Bolsonaro empobrece a política nacional. Reduz o debate a acusações recíprocas. Mas a cada dia parece mais difícil para o eleitor brasileiro fugir desta dualidade. Tancredo Neves dizia que a esperteza, quando muita, vira bicho e engole o dono. É o que parece estar acontecendo agora na dança de candidatos. Ou, de outra forma, é incompetência mesmo.

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