OPINIÃO

Artigo: "Mães que viajam a trabalho"

Correio Braziliense
postado em 09/05/2022 06:00

Por FLÁVIA TAKAFASHI - Advogada, é diretora da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq)

O ano de 2022 me surpreendeu com um novo modelo de comemoração do Dia das Mães. E, junto com ele, mais um questionamento agregado à linda jornada que chamamos maternidade. Pode uma mãe viajar sem os filhos bem no Dia das Mães? Se conciliar maternidade e carreira profissional significa gerenciar uma linha tênue entre a presença e a ausência na vida dos filhos, para as mães que viajam a trabalho o desafio cresce. Numa rotina profissional de malas e ausências físicas, é preciso ligar esse alerta em um nível ainda mais alto.

Na minha vida, a maternidade foi cuidadosamente planejada e esperada. Mas, na minha cabeça, ser mãe jamais ocuparia o lugar que o trabalho e a carreira ocupam. Eu e uma amiga tivemos nosso primeiro filho no mesmo momento. Quando os seis meses de licença-maternidade acabaram, ela pediu exoneração e foi se dedicar integralmente ao primeiro filho. Eu nunca cogitei deixar de trabalhar, mesmo com os filhos pequenos. Trabalho e maternidade eram assuntos independentes em minha programação mental.

Após a chegada dos meus dois filhos, o potencial conflito entre ser mãe e ser uma boa profissional passou a se misturar ainda mais. Reuniões e apresentações na escola, visitas ao pediatra ou sair para buscar o filho mais cedo na escola interferem na rotina profissional. Com a pandemia, a rotina profissional se inseriu dentro de casa. Foram quase dois anos completos com as aulas virtuais dos meninos dividindo a mesma mesa com o teletrabalho dos pais, na sala de jantar de casa.

Muitas situações também convivem simultaneamente nessas duas gavetas (trabalho e maternidade). É comum pedir apoio a familiares para levar as crianças à natação. Deixar os filhos com a avó porque a reunião será mais longa que o previsto. Não conseguir acompanhar a discussão do grupo de mães que estão decidindo quem vai comprar os presentes dos professores. Chegar atrasada para buscar o filho na escola porque você estava fazendo uma apresentação e não podia interromper no meio. Situações corriqueiras como essas invadem o nosso espaço de maternidade.

Mas não existe maior ponto de conexão entre a vida profissional e a familiar do que viajar a trabalho. Por vezes, a data da viagem não permite ajustes. Já está previamente definida. Entre a decisão de ir e a organização da logística para amparar os filhos durante nossa ausência há variáveis que pesam ainda mais. Viajar na semana de provas da escola, por exemplo. Estar fora nos dias de apresentação escolar e aniversários nunca foi uma hipótese aceitável para mim. Até o momento, sempre as evitei. Mas embarcar para uma semana de viagem logo depois do almoço do Dia das Mães foi um novo desafio.

Ser mãe que viaja a trabalho é estar a cada check-in frente a frente com o dilema da culpa da maternidade. Dilema que nos conduz gentilmente para um lugar de questionamentos e verdades absolutas que tentam sempre considerar essas duas realidades como excludentes ou completamente incompatíveis. É aquela hora em que a gente pergunta: será que dá mesmo para equilibrar maternidade e trabalho?

Ser uma mãe que viaja a trabalho em datas comemorativas é tão desafiador quanto ser mãe e estudar à noite, ser mãe e gerenciar os próprios negócios, ou ser mãe e deixar os filhos em casa para sair sozinha com o marido ou com amigos. Sempre haverá cobrança sobre os ombros das mães. É um patamar inalcançável e santificado ter que abdicar de suas escolhas em prol daqueles que elas mais amam: os filhos. É necessário ter em mente que a mesma mulher que se realiza como mãe é aquela que também se realiza contribuindo com o trabalho profissional que faz.

Diante do novo desafio, o de passar o Dia das Mães fora, propus aos meus dois meninos uma alternativa. Em vez de comemorar o Dia das Mães com o tradicional almoço familiar de domingo, neste ano fizemos um jantar especial no sábado. Juntos, tentamos aprender que a maternidade não é um lugar feito e moldado pelos momentos perdidos ou pelas ausências sentidas. É um lugar de amor, de presença, de cuidado, de dedicação constante e de afeto.

Ser mãe é minha maior alegria, minha grande realização e responsabilidade. E as escolhas de amor que faço em prol da maternidade são muito maiores do que viajar ou não na tarde do Dia das Mães.

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