» Sr. Redator

Combustíveis

Para tentar conter a alta dos combustíveis, o governo tenta reduzir o ICMS e zerar os impostos federais sobre gasolina e etanol, compensando os estados e o DF por parte da perda de arrecadação. A engenharia jurídico-financeira é confusa, controversa, mas não deixa de ser uma tentativa válida, embora parca. Isto porque o alto preço da gasolina se deve a inúmeras explicações, especialmente à alta do preço internacional do petróleo, em dólar, que puxa, por alguma explicação mercadológica esdrúxula, o etanol com ele. Este preço não é de livre concorrência, mas, na verdade, de um oligopólio formado pela Opep e pela Rússia. Essas questões dão complexidade a qualquer discussão que envolva a Petrobrás — privatizá-la, como defendia Paulo Guedes, ou "devolvê-la" ao povo brasileiro, como defende Lula, trazendo à memória os tempos sombrios em que seu partido e coligados surrupiaram a empresa. Poucos parecem saber que a Petrobrás, na verdade, é uma sociedade de economia mista, em que mais da metade do lucro vai para o Estado, como acionista majoritário. Ou seja: o governo federal lucra muito com a Petrobrás, seja como acionista ou royalties, seja na benesse óbvia de não pagar impostos para si mesmo; ao contrário, arrecadá-los. Algo, de fato, lhe cabe fazer!

Ricardo Santoro,

Lago Sul

Fanfarrice

As medidas eleitorais do presidente Bolsonaro e a fanfarrice do ministro Paulo Guedes, com validade até dezembro, como a ICMS zero para os combustíveis, são sinais de transtorno mental, ou pânico eleitoral. A limitação deixará os orçamentos estaduais ainda mais combalidos. Não há, na verdade, uma política econômica e o atual governo é incapaz de garantir medidas compensatórias aos trabalhadores e às famílias de baixa renda ou que se encontram em situação de vulnerabilidade econômica, além dos milhões de famélicos. Aliás, as ideias de Guedes, desde 2019, são uma sucessão de fiascos econômicos, que devem envergonhar a categoria dos economistas. O presidente, por sua vez, não sabe o que é administração pública, menos ainda o que seja governar um país da dimensão do Brasil, com problemas são tão plurais e diversos quanto o tecido étnico-racial da sua demografia. Mas o governo não consegue perceber a realidade nacional. Tem viseiras que o levam a focar e favorecer as facções existentes no Congresso, como a aprovação de quase R$ 5 bilhões para o famigerado Centrão, enriquecendo o bolso de parlamentares, cujos atos pregressos têm sanções previstas no Código Penal. A solução apresentada na segunda-feira para conter os sucessivos aumentos dos combustíveis foi tão bizarra quanto o próprio Executivo federal.

José Ricardo de Almeida,

Jardim Botânico

Desconfiança

Ignorar as manifestações populares, como não sendo termômetro para o resultado das eleições presidenciais, é total falta de perspicácia. Pleito fiscalizado, reeleição garantidíssima, para a felicidade dos homens de bem. Desconfiemos daqueles que querem a volta da ladroagem.

Jivanil Caetano de Farias

Jardim Botânico

País de triste futuro

Muito bom o artigo do Roberto Brant, "Um país que um dia teve futuro" (Correio, 6/5). Fala de um tempo — anos 1950 e 1960 e governo de JK — em que o país crescia, movido pelo otimismo de Juscelino, que construía hidrelétricas e estradas, integrava e modernizava o país: indústria naval, automobilística etc. Um presidente lúcido e batalhador que sabia sonhar, sorrir e perdoar. O ódio não tinha vez e a esperança e a autoestima dos brasileiros eram altíssimas. Havia certeza de que o Brasil teria um futuro grandioso. Mas isso não ocorreu. Apesar de sermos o 3º produtor de alimentos e a 10ª economia do mundo, somos pobres. Em 2021, nosso PIB per capita foi de US$ 14, 1 mil, o 6º da América do Sul, atrás de Chile, Guiana, Uruguai, Argentina e Suriname. A renda é baixa e mal apropriada, pois os 1% mais ricos ficam com 29% dela e 10% embolsam 42%. Se uns ficam com muito, aos outros sobram pouco. Assim, 90% das pessoas passam dificuldades e 30 milhões passam fome. O Brasil tem a 2ª pior distribuição de renda do mundo, só atrás do Catar. Que país desigual e injusto! A educação básica, que podia dar oportunidades aos jovens e reduzir desigualdades, é muito fraca. Sem qualificação, os salários são baixos e o país fica sem futuro, com a baixa produtividade do trabalho. Mas as elites dos três poderes são indiferentes e insensíveis à essa cruel realidade. Só pensam em seus privilégios: emendas vultosas, salários altos (até acima do teto) férias em dobro, meio expediente etc. Lula e Bolsonaro são parceiros de agressões mútuas e do pacto de proteger as elites, enquanto dão bolsas e auxílios ao povo. O IR, por exemplo, só tem duas alíquotas, a mais alta, 27%, nivela classe média a milionários. Entre os mais ricos, muitos não pagam imposto, porque dividendos não são taxados desde 1995. As anunciadas reformas tributária e administrativa destinadas a estimular a produção, fazer justiça fiscal e acabar com privilégios, sumiram. O pacto das elites, garantido pelo Centrão, é forte e o futuro do país é triste.

Ricardo Pires, Asa Sul