Opinião

Artigo: Hora e a vez de Wellington Dias

Wellington, a propósito, é talvez o único governante que passou a priorizar o ajuste previdenciário em suas recentes gestões no governo do Piauí

Correio Braziliense
postado em 13/12/2022 06:00
 (crédito: Valter Campanato/Agência Brasil)
(crédito: Valter Campanato/Agência Brasil)

Raul Velloso — Economista

Segundo a CBN, em relação à PEC da Transição, que o novo governo se empenha para aprovar, o vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, teria dito que, por último, "o ajuste das contas públicas se tornou interminável". O que ele talvez tenha querido dizer é que, com base no que se tem visto até agora, o ajuste tende a ser necessariamente demorado, o que parece ser basicamente correto.

Tanto que foi lá atrás no final de 2016 que o governo Temer aprovara a PEC do Teto dos Gastos com teto igual à inflação decorrida, mas depois os governos tiveram de renovar sua vigência algumas vezes por descumprimento da regra. E, agora, na transição entre o governo Bolsonaro e o de Lula, repete-se o mesmo problema do não cumprimento da exigência de o gasto crescer no máximo pela inflação decorrida, só que, com o passar do tempo, o "buraco" a perdoar por uma nova emenda vai se tornando cada vez maior.

Meu ponto central é que, originalmente, os formuladores do teto cometeram o erro de não considerar o alto grau de rigidez dos gastos, pois apenas dois itens, Previdência e Assistência, têm um peso imenso em relação ao total (tendo passado de 28,3 para 68,2% em 2021, por exemplo, sendo 51,8 para o primeiro e 16,4% para o segundo neste último ano). Como Assistência é a prioridade um e Previdência é o gasto "mais obrigatório" de todos, não há como reduzir rapidamente o ritmo de crescimento do gasto sem um esforço de ajuste brutal no item Previdência. Ponto.

Essa é a tecla em que mais tenho batido ultimamente, ainda que esse tipo de ajuste seja necessariamente demorado, como bem Alckmin deve ter farejado. E em que pese o fato de a obrigatoriedade de zerar os déficits previdenciários já está prevista em uma nova emenda (no § 1º. do Art. 9º. da EC 103, de 12/11/19), algo que poucos sabem, como tal providência requer necessariamente vários anos para ser cumprida, é fácil os gestores públicos "atrasarem" sua execução, e os exigentes mercados e seus assessores, ignorantes no assunto, continuarem exigindo à toa que se tenha uma regra simples que se expresse em um número mágico como a atual taxa do teto, que seja verificável no máximo em um ano.

Outra questão que passou a dominar a pauta da mídia é a escolha do ministro da Fazenda, que é obviamente importante. Mas, sinceramente, não vejo por que se preocupar tanto com isso quando se sabe que Fernando Haddad adquiriu bastante experiência em gestão pública nos cargos que já exerceu.

Na verdade, a mídia precisa se voltar para aquele que é, esse sim, o principal problema, ou seja, a substituição da âncora fiscal que ruiu — o teto de gastos — por outra que funcione. Conforme acabo de explicar, o "x" da questão é o enorme desequilíbrio previdenciário, que precisa ser combatido do jeito certo, e com o amparo do Art. 9º. Da EC 103. E eliminá-lo é urgente (aliás, aqui está a nova âncora), porque a falta de correção desse desequilíbrio está exaurindo os recursos disponíveis para investimento público.

O presidente-eleito, Lula da Silva, deveria, então, convocar todos os governadores na primeira semana de janeiro, como já sinalizou, para, em reunião subchefiada pelo governador Wellington Dias, que, em boa medida, já fez esse trabalho em sua recente gestão no Piauí, deslanchar a tarefa. A partir desse encontro, seriam preparadas, com base em diagnósticos adequados, para pelo menos o Regime Próprio da União, e o de todos os Estados e os principais municípios, metas de recuperação do espaço para investir.

Wellington, a propósito, é talvez o único governante que passou a priorizar o ajuste previdenciário em suas recentes gestões no governo do Piauí. Tanto assim que, seguindo o passo-a-passo convencional de aprovar reformas e estruturar um fundo previdenciário que vá absorvendo gradativamente a grande maioria dos antigos segurados, mediante o aporte de ativos e outras receitas para cobrir com recursos firmes as necessidades de financiamento, ele passou a construir um caminho firme para zerar os chamados déficits previdenciários financeiros e atuariais.

Cobertura do Correio Braziliense

Quer ficar por dentro sobre as principais notícias do Brasil e do mundo? Siga o Correio Braziliense nas redes sociais. Estamos no Twitter, no Facebook, no Instagram, no TikTok e no YouTube. Acompanhe!

Newsletter

Assine a newsletter do Correio Braziliense. E fique bem informado sobre as principais notícias do dia, no começo da manhã. Clique aqui.

Notícias pelo celular

Receba direto no celular as notícias mais recentes publicadas pelo Correio Braziliense. É de graça. Clique aqui e participe da comunidade do Correio, uma das inovações lançadas pelo WhatsApp.


Dê a sua opinião

O Correio tem um espaço na edição impressa para publicar a opinião dos leitores. As mensagens devem ter, no máximo, 10 linhas e incluir nome, endereço e telefone para o e-mail sredat.df@dabr.com.br.