RACISMO

Artigo: De repente, ancestral

JOSÉ ALBERTO SANTOS DA SILVA - Articulista da Frente Negra Gaúcha

Tenho sentimentos controversos quanto a negros bem-sucedidos casados com brancos de condição geralmente inferior à deles, iludidos que a embriaguez do sucesso possa livrá-los de sofrerem o que Seu Jorge, Neymar e outros já sofreram, mas não denunciam em alienação voluntária de seus sentimentos. A propósito, perguntado por um branco como enfrentaria o racismo na Europa, o jogador de futebol da Seleção garganteadora do 7 X 1 respondeu que não teria problema por não ser negro. Os sonhos desses talentos endinheirados é que esquecem qual a cor que os acompanha; depois, querem ser aceitos integralmente pelo mundo branco menosprezando as dificuldades do homem e da mulher gente comum. Só os gênios devem sobreviver até quando lhes for permitido. Mais nauseantes se tornam os astros cujo brilho os cega em vez de iluminá-los, ao atribuírem culpa às vítimas por fracassos e loucuras. Justificam os brancos tangenciando uma síndrome de Estocolmo.

Ao ler sobre o campo de concentração de Treblinka, temos a abordagem policial na Polônia sob o domínio nazista: — Entre nesse camburão! — ordenava o soldado nazista. — Não entro! — protestava o homem, indignado. — Não sou criminoso, não fiz nada de errado! Sou o dr. Fulano de Tal, indicado várias vezes para um Prêmio Nobel disto e daquilo. - Entre nesse caminhão duma vez, porque tu és apenas um judeu.

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O resto da história é sabido e só um seguidor do Cristo armado de fuzil abana ao diabo e arrisca ver de novo. Românticos negam que aconteça a cada 20 minutos com negros de qualquer nível. A negativa em "embarcar" nas guarnições da PM ou BM, "polícia da moralidade", contra vadios num país de fracassados e ladrões, fez com que de 99% da população no Brasil em 1900 fossem os negros reduzidos à "minoria" dos atuais 58%. Covardia é a causa da morte genocida. Deus o livre contrariar a sabedoria de um soldado armado de vontade de matar. Negrinho limpo e educado é concorrente. Negro bom é o caído na sarjeta. A Instituição briosa nega, não pune e se repete.

Encaminhamo-nos para coisa pior do que balas perdidas. Reativamos câmaras de gás em carros de polícia, espancamentos porque negros não sentem dores; meninos industrializados para o crime por ordem de alguém. Observe-se aí os mulatinhos. Ao saírem do mapa da fome ou da fila do salário mínimo, ascendem na escala da alienação e de soldados do mato, vão a sargentos do mato, capitães do mato. Repetidos por judeus nos campos de concentração que matavam iguais para não morrerem.

Não pensem, bonitinhas e endinheirados, que são melhores do que meu pai, minha mãe e meus avós. O mundo não valorizava a riqueza que tinham. Não à beleza de orixás de testa alta, narizes estalados na face, garrão e bunda; de coxas que falam por si mesmas, suculências peitorais que alimentaram algozes, corações predispostos a acolher dos primeiros aos últimos socorros. Os talentos prostravam-se frente a santas senhoras de pele clara, reincidentes no chamado ranger de dentes, simulacro de um sorriso dantesco. A alegação do livre arbítrio aos desconhecedores do espírito de corpo salva-lhes o direito de sacrificar a história do lombo de ancestrais.

Eldridge Cleaver, em Alma no exílio, diz que, ao abraçar a mulher branca, o negro abraça a liberdade, a elevação à condição humana, à plena realização; ao abraçar a mulher negra, abraça o açoite, a dor que embrutece. Nas fotos de família, mal referidos até o esquecimento, são o ponto preto que não significa integração, mas "a remissão de Cam". Um colega "branco moreno", sem ser perguntado, dizia não saber "da onde", tinha "Silva" no nome. Getúlio Vargas, o nazifascista, ironizava que na genealogia brasileira, fatalmente passaríamos pela cozinha (negros) ou pelo mato (índios). A maior população negra fora da África.

Chamados de "negros", bonitinhas e bem posicionados doutores se enchem de melindres. Afinal, são únicos. Negra não é a raça deles da qual sentem orgulho repentino; confrontados, ser negro soa em seus nervos como condição de submissão definitiva, inferioridade, humilhação. Aí aflora-lhes a revolta ancestral por 400 anos de direito sobre a vida de milhões de pessoas. Nenhum negro deve se importar de ser chamado de "macaco". Não exploram uns aos outros. Que serventia gloriosa tem um macaco cientista, literato ou atleta. Aberrações fantasiadas de gente, mal paridas em esgotos, aninhadas em sovacos de cobras varejeiras, truculências com origem em coisa pior do que irracionais e sem nome, essas sim são bem conhecidas como inomináveis. Afinal, serão únicos a sobreviver num regime de supremacia branca.