Análise

Artigo: As nuvens vão se dissipar

O futuro chefe da pasta, assim como o presidente eleito, tem um enfoque social da questão econômica. Acredita que o governo deve contribuir para que o país comece a pagar a histórica dívida para com a parcela mais vulnerável da nossa sociedade

JOÃO CAMARGO - Presidente do conselho grupo Esfera Brasil e da CNN Brasil

Fernando Haddad, como se sabe, não era o nome da preferência do mercado para ocupar o Ministério da Fazenda. O anúncio de Lula, sem nenhuma surpresa, formou nuvens sobre o céu da Faria Lima e adjacências. O empresariado teria gostado de alguém identificado com a doutrina liberal que, ao menos nas ocasiões em que Paulo Guedes teve oportunidade de fazer valer sua visão, prevaleceu durante o governo que se encerra.

O futuro chefe da pasta, assim como o presidente eleito, tem um enfoque social da questão econômica. Acredita que o governo deve contribuir para que o país comece a pagar a histórica dívida para com a parcela mais vulnerável da nossa sociedade. E vai atuar, dentro dos limites impostos pela própria coalizão que dá lastro político à nova administração, para fazer com que o transatlântico Brasil ajuste seu curso.

Tal constatação não deve surpreender os observadores mais antenados. É apenas natural que assim seja. Lula, diante de um arco ideológico que vai da esquerda à centro-direita, não venceu a eleição para fazer mais do mesmo. Comentava-se, antes de a escolha vir a público, que não faria muita diferença o nome do chefe da pasta, uma vez que o próprio presidente seria o maior responsável pelos rumos da política econômica. De certa maneira, portanto, o fator Haddad estava devidamente precificado desde o resultado do pleito.

Mais relevante é atentar para o que significa, a Lula e Haddad, a opção pelo resgate da dívida social. Quer dizer que vão gastar mais do que arrecadam, deteriorando a situação das contas públicas? Quer dizer que vão aplicar um choque tributário à la Robin Hood, forçando uma redistribuição de renda? Quer dizer que vão promover o crescimento a qualquer custo, mesmo o de despertar o dragão inflacionário?

O mercado sabe que a resposta a todas essas perguntas é um redondo "não". Não resta dúvida de que a equação do crescimento não passa por despesas superiores à arrecadação. Responsabilidade fiscal e social não são incompatíveis. São, ao contrário, complementares. Preferir um ministro liberal não é o mesmo que olhar para o ungido através de lentes distorcidas. As decisões do capital não são pautadas por ideologias. Entre serem ortodoxos ou heterodoxos, desenvolvimentistas ou neoliberais, os empresários são apenas pragmáticos: deixam as disputas teóricas para economistas e lidam com a realidade tal como ela se apresenta.

Ex-ministro da Educação, ex-prefeito de São Paulo, ex-candidato a presidente da República, Haddad teve exposição suficiente para que não pairem dúvidas sobre algumas de suas convicções mais profundas. Da mesma maneira que Lula, ele sabe que lucro não é pecado, e se impõe sobre os setores mais à esquerda do PT, que abordam assuntos econômicos com um romantismo ultrapassado.

Ele também sabe que o capital estrangeiro é muito bem-vindo. E que, para termos uma expansão forte e sustentável, o empresariado deve continuar reinvestindo no país. A classe produtora tem que manter constante diálogo com o governo, para que se sinta segura para continuar a investir. Afinal, o investimento da iniciativa privada é mais de quarenta vezes superior ao do governo.

Ninguém duvida que Lula é o político que mais entende de inclusão social no Brasil. Em 2003, ao assumir o primeiro mandato presidencial, deu sequência à orientação econômica mais liberal de Fernando Henrique Cardoso, mas sem que isso o impedisse de priorizar as políticas sociais, dando mais robustez e visibilidade a iniciativas nessa área do que o governo anterior.

Lula sabe que, para dar efetividade a essa diretriz, precisa garantir um forte crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Sem expansão substancial da economia não há geração de emprego capaz de absorver a população desempregada ou subempregada. E, sem emprego, a renda oriunda do Bolsa Família poderá no máximo tirar o Brasil do mapa mundial da fome - o que é necessário, mas não suficiente. O PIB precisa crescer para termos um Brasil mais rico.

Haddad e Lula terão êxito na empreitada? Será preciso aguardar as primeiras medidas para avaliarmos com mais acuidade suas chances. O empresariado vai ficar de olho em cada passo do governo. O sucesso do novo governo será também o sucesso em potencial de quem apostar que o país vai dar certo, se reconciliar com seu destino de grandeza. Torcer contra é atitude de mau perdedor, o que o empresariado, como classe, não é, se não por outro motivo porque não é bom negócio.

Meu prognóstico é que as nuvens vão se dissipar e haverá uma fina sintonia entre a Faria Lima e Brasília, uma sintonia que passa pela comunicação azeitada entre as partes, uma entendendo o papel e a relevância da outra. Lula escolheu o melhor quadro partidário para a Fazenda. Haddad será um excelente ministro. Tenho certeza de que ambos darão motivos para que a mão invisível do mercado os aplauda.

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