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Artigo: A falta de interesse pela escola

MOZART NEVES RAMOS - Titular da Cátedra Sérgio Henrique Ferreira, do Instituto de Estudos Avançados da USP de Ribeirão Preto

Num passado não muito distante, os pais faziam filas para matricular os filhos em escolas públicas. Hoje, sobram vagas. Infelizmente, há um crescente desinteresse dos alunos pela escola. E, por favor, não vamos atribuir isso à pandemia, pois esse fato já vem de alguns anos, como veremos a seguir, tomando como exemplo o estado de Pernambuco. Em minha opinião, os dois principais fatores por esse desinteresse são a necessidade de trabalhar — buscar renda — e o fato de a escola não mais responder aos anseios de nossos estudantes — estamos falando de uma escola cada vez mais desconectada do mundo.

Não podemos mais ter uma escola de tamanho único. Precisamos de uma escola com currículos mais flexíveis e antenada com os projetos de vida dos estudantes. Esse, diga-se de passagem, não é um desafio apenas brasileiro, mas mundial. Uma escola com essas características exige muito investimento e gestão de processo.

Costumo dizer com certa frequência que o Brasil pode aprender com o Brasil. Esse é o caso das escolas de Ensino Médio em Tempo Integral (Emti) implantadas em Pernambuco há quase 20 anos, que vêm promovendo excelentes resultados em termos de aprendizagem e permanência escolar — porque não se trata apenas de mais tempo na escola, mas de escolas que promovem o desenvolvimento pleno dos estudantes, em consonância com seu projeto de vida. Por seu lado, os resultados para as de tempo parcial ficam bem abaixo aos das de tempo integral. Portanto, esse é um desafio que ainda se observa, pois nem todos os jovens, infelizmente, podem estudar em tempo integral por causas laborais.

Mas, mesmo em Pernambuco, emergem preocupações sobre o desinteresse dos estudantes pela escola. No processo de matrícula deste ano para alunos novatos, o estado ofereceu 62.711 vagas, e apenas 10.359 delas foram efetivadas; e, das 52.352 vagas não preenchidas, 14.967 são em tempo integral. Isso não é de agora, já vem desde 2018 — bem antes da pandemia.

Esse quadro de desinteresse também é corroborado pela recente pesquisa produzida pelo Itaú Social em parceria com a organização Todos pela Educação, o Instituto Península e o movimento Profissão Docente — que ouviu mais de 6,7 mil professores de escolas públicas de todo o Brasil. Um dos resultados dessa pesquisa, na visão dos professores, é que um dos maiores desafios é o de reverter o crescente desinteresse dos alunos pelas aulas. As aulas expositivas, com alunos enfileirados, olhando a nuca dos colegas à sua frente, e um professor falando de coisas e mais coisas que já estão na internet, estão literalmente falidas, mas a maioria das escolas continua insistindo nesse modelo.

Em uma das tantas palestras on-line que fiz durante a pandemia, um professor ouvinte expressou sua preocupação com a cola ou fila em provas on-line. Ao que um aluno ouvinte retrucou: "Professor, se a resposta à pergunta que o senhor fez já estava no livro, essa não era a pergunta a fazer e sim aquela cuja resposta não estava no livro".

Os sinais de falência desse tipo de aula expositiva tradicional, sem enredo, como dizia o saudoso Ariano Suassuna, já chegaram ao ensino superior. Em parte, isso explica porque, de cada 100 alunos ingressantes nesse nível de ensino no Brasil, 59 desistem. Isso tem preocupado o reitor da mais importante universidade brasileira — a Universidade de São Paulo (USP). Certa vez, o reitor Carlos Gilberto Carlotti Júnior me indagou: "Por que sobram tantas vagas na USP advindas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu)? Será que os alunos não querem mais estudar na USP?" Por isso, a universidade começa, agora; a trabalhar em uma forte articulação com o ensino básico e a rever seus currículos e metodologias de ensino.

Como diz a letra da música Anunciação, do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença: "Tu vens, tu vens/ Eu já escuto os teus sinais/ A voz do anjo sussurrou no meu ouvido/ Eu não duvido, já escuto os teus sinais". Pois é: ouvimos, não duvidamos, mas insistimos. Se continuarmos nessa toada, em breve vamos ter prédios escolares cada vez mais vazios.

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