CAROL DARTORA, deputada federal (PT-PR)
O ano de 2026 não será apenas mais um ano eleitoral. Ele marca uma encruzilhada histórica para a democracia brasileira. Depois de um período de aprofundamento das desigualdades, de ataques aos direitos sociais e de intensificação da violência política — especialmente contra mulheres e pessoas negras —, o país será chamado a decidir quem governa, para quem governa e com quais valores.
É nesse contexto que afirmo: (re)eleger uma mulher negra não é símbolo, não é favor, não é concessão. É uma decisão política profunda sobre quem tem o direito de existir plenamente, decidir e governar no Brasil.
Vivemos sob uma lógica que tenta nos convencer de que não há alternativas. Como alerta o teórico Mark Fisher, o neoliberalismo atua também no campo da imaginação política, produzindo a sensação de que o sofrimento social é inevitável. Slavoj iek complementa ao afirmar que o cinismo ideológico transforma a desigualdade em normalidade e o autoritarismo em método.
Esse manifesto nasce para romper com essa lógica e afirmar que o futuro não está cancelado: ele está em disputa. Essa disputa passa pela presença negra na política institucional.
Chamamos de virada histórica o momento em que sujeitos historicamente excluídos deixam de ser exceção tolerada e passam a se movimentar e alterar as estruturas do poder.
Não basta ocupar espaços; é preciso transformá-los. Não basta estar; é preciso mudar regras, prioridades e sentidos.
Nesse contexto, o racismo e sexismo não são desvios do sistema político brasileiro, são pilares estruturantes. Pierre Bourdieu já nos alertava para a força da violência simbólica, que faz parecer natural aquilo que é profundamente desigual.
No Brasil, esse mecanismo se combina com o que Cida Bento define como pacto da branquitude: um acordo silencioso de autoproteção dos privilégios raciais, que reage sempre que esses privilégios são questionados.
As políticas de ação afirmativa mudaram a escala da história brasileira, ampliando o acesso da população negra à universidade, à produção intelectual e aos espaços de decisão. Mas esse avanço também gerou reação. Como nos lembram autoras como Grada Kilomba e Bell Hooks, quanto mais rompemos o silêncio imposto pelo racismo, mais o sistema tenta nos empurrar de volta à margem. A violência política de gênero e raça não é individual: é um ataque direto à democracia.
Sou a primeira deputada federal negra do Paraná. Minha trajetória é marcada pela educação pública, pelo movimento social e pela experiência concreta da precarização do trabalho docente. Essa história orienta meu mandato. No Congresso Nacional, tenho atuado no enfrentamento ao racismo político, na defesa da educação pública antirracista, na valorização da cultura periférica e na proteção de direitos.
Fui relatora do projeto que garantiu a reserva de 30% das vagas em concursos públicos federais para pessoas negras, indígenas e quilombolas. Destinei recursos inéditos para a cultura e para a juventude negra, como investimentos no hip-hop enquanto política pública. Apresentei projetos para combater a violência política de gênero e raça e atuei para ampliar o acesso a direitos e proteção institucional.
Colocar mulheres negras no centro da política pública não exclui ninguém. Ao contrário, reorganiza prioridades e amplia direitos. Como afirma Nilma Lino Gomes, o movimento negro é também um movimento educador, capaz de produzir conhecimento e novos projetos de sociedade.
As eleições de 2026 nos colocam diante de uma escolha muito séria, mas ao mesmo tempo fácil: aceitar a naturalização das desigualdades ou aprofundar a democracia.
Por isso, convocamos instituições democráticas, movimentos sociais, sindicatos, universidades, coletivos culturais, organizações populares, lideranças religiosas comprometidas com a justiça social, personalidades públicas e cidadãs e cidadãos a assinarem esse manifesto.
Assinar esse manifesto é afirmar a democracia viva. É escolher o bem-viver como projeto de futuro. É tomar posição na virada histórica em curso. A democracia só se fortalece quando mais gente participa dela, e quando quem sempre foi excluído passa a escrever e assumir a própria história.
