ARTIGO

Opinião: América nua

Donald Trump não se constrange ao expor o imperialismo norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um imperialista sem hipocrisia

Cristovam Buarqueprofessor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

Donald Trump foi eleito com o lema "America First", mas governa promovendo a "America Naked" (América nua). Faz o strip-tease da democracia norte-americana, como se a Estátua da Liberdade estivesse se despindo diante do mundo. Para começar, se desfaz da tocha que usa desde 1886 como ícone de boas-vindas aos imigrantes e impõe muros, deportações e mortes, divide famílias, tratando imigrantes como invasores indesejáveis, não gente.

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Despe-se da máscara de intervenções em outros países travestidas de intenções democráticas e assume a face autêntica de roubar petróleo, terras raras e territórios. Quase todos os seus presidentes agiram de forma semelhante com discursos dissimulados. John Kennedy impôs o bloqueio a Cuba. Lyndon Johnson e Richard Nixon colocaram porta-aviões no litoral para apoiar golpes, inclusive no Brasil, impor ditaduras sempre sob discurso de promover democracia.

A ameaça de ocupar a Groenlândia apenas repete a história. Em 1848, o presidente James K. Polk invadiu e incorporou aos Estados Unidos parte considerável do território mexicano, dando origem aos atuais estados do Texas, Califórnia, Nevada, Utah, Arizona, Novo México e partes do Colorado e do Wyoming. Em 1867, o presidente Andrew Johnson comprou o Alasca da Rússia, ampliando o território dos Estados Unidos em cerca de 30%. Naquele mesmo ano, houve tentativa de comprar a Groenlândia.

Trump desnuda a roupa da liberdade de opinião quando revoga vistos por divergências políticas antigas com a vestimenta de proteger a democracia contra a União Soviética. O mesmo ocorre quando tenta controlar universidades e cortar verbas de instituições que não se enquadrem no negacionismo anticientífico.

Embora, desde Monroe, a América Latina tenha sido tratada como protetorado, com "veias abertas" e "mentes tapadas", nenhum outro presidente aceitaria posar simbolicamente como "presidente interino" de um país latino-americano. Trump não se constrange ao expor o imperialismo norte-americano em sua nudez, sem máscara, sem roupa. É um imperialista sem hipocrisia.

O que talvez Trump não perceba é que, ao desnudar a América, desnuda a própria democracia nacional, estabelecida de forma inspiradora há 250 anos. Ao perseguir estados governados por opositores do partido democratas, Trump desnuda o próprio conceito fundador dos Estados Unidos como união de estados cooperantes. Acena para a subversão maior de substituir Estados Unidos por república americana, com um líder que manipula a lei para impor o que ele deseja, tipo candidato a imperador.

Desnuda-se da hipócrita fantasia de que o "american way of life" pode chegar a todos, americanos e estrangeiros. Não esconde que, para manter seu nível de vida, é preciso apropriar-se de petróleo, terras raras e territórios, expulsar imigrantes e cortar benefícios sociais dos norte-americanos pobres — seus "instrangeiros", estrangeiros sociais.

Ao desprezar o multilateralismo e as questões ambientais em um mundo globalizado, desnuda o que restava de humanismo em sua democracia. Ameaça a humanidade, mas atende ao desejo da maioria do eleitorado. Desnuda o "Make America Great Again" ao assumir que sua América é para poucos, e nela não cabem imigrantes geográficos nem imigrantes geracionais que ainda não nasceram. Mostra a nudez de uma democracia que é apenas eleitorcracia nacional. Desfaz a ilusão de que a maioria dos eleitores representa o povo e que o povo representa a humanidade. Ao tratar com desdém a crise ecológica, ele representa o eleitor com automóvel que prefere gasolina mais barata no próximo mês a evitar a elevação do nível do mar nas próximas décadas. O que ele diz e faz é o que uma parcela expressiva do eleitorado deseja ver e ouvir.

Trump não é a causa; é a consequência. Surge como o maestro do strip-tease da democracia americana na era da escassez: quando já não há espaço para imigrantes estrangeiros, nem para os pobres nacionais, nem para as futuras gerações. Mas, na nudez do sistema, ele mostra que a democracia corre o risco de se reduzir a uma eleitorcracia nacional, sem valores humanistas.

Ao despir a democracia norte-americana, Trump pode despertar democratas ainda humanistas a perceberem que a soberania do eleitor egoísta e imediatista de um país leva ao divórcio entre democracia e humanismo, e que uma "humanocracia" requer novos rumos para a civilização, sobretudo uma democracia em que os eleitores nacionais e imediatistas tenham freios humanistas, planetários e de longo prazo.

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