Marcelo Senise — sociólogo e presidente do Instituto Brasileiro para a Regulamentação da Inteligência Artificial (Iria)
Minha jornada de quase quatro décadas no marketing político mostra-me uma realidade inquestionável: as eleições de 2026 não serão uma mera evolução, serão uma ruptura sísmica. O cenário político brasileiro adentra um território sem precedentes, reescrito pela velocidade vertiginosa e pela capacidade quase divina da inteligência artificial (IA). A paralisia legislativa da Câmara dos Deputados nos deixou à beira de um abismo legal. Caminhamos, a passos largos, para um "far west digital" eleitoral.
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O que foi válido ontem, hoje é um risco. As campanhas não são mais decididas nos palanques, são travadas em um campo de batalha invisível. As ameaças de 2026 são múltiplas e sofisticadas: de deepfakes e voicemails falsos, capazes de aniquilar a credibilidade em tempo real, a exércitos de bots e perfis falsos que, por meio do astroturfing, sufocam o debate autêntico. Mais insidioso ainda é o microtargeting psicológico — uma cirurgia de precisão nas emoções dos eleitores —, em que a propaganda sutil desvia decisões conscientes. Vivemos em bolhas de filtro, e neurobots atuam como engenheiros de emoções. Essa combinação mina os pilares institucionais, gerando um ambiente onde o ceticismo é a norma e a verdade, um conceito em erosão.
O alerta é claro: a "janela para blindar legalmente as eleições de 2026 se fechou". O prazo legal esgotou-se. A oportunidade de estabelecer diretrizes eficazes sobre o uso de tecnologias disruptivas simplesmente sumiu. Essa inércia legislativa não é apenas uma falha, é uma condenação estrutural que escancara a vulnerabilidade do nosso sistema. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), embora bem-intencionado, se vê em xeque: suas normativas, predominantemente reativas, são como um band-aid em uma hemorragia, focando na gestão de crises instaladas, não na prevenção. E essa lentidão na atualização cria uma defasagem explorada por atores menos éticos.
O Brasil não é o primeiro a enfrentar esses desafios. Outras democracias, como Estados Unidos, Índia e Europa, foram campos de testes para as táticas mais insidiosas da manipulação digital (como o escândalo da Cambridge Analytica e deepfakes). Enquanto esses países lutam para criar arcabouços legais, o Brasil se prepara para um pleito crucial com uma defasagem regulatória alarmante, sem o resguardo legal mínimo.
Nesse cenário de far west digital, candidatos, partidos e o eleitorado tornam-se alvos vulneráveis. Ataques orquestrados explorarão essa falta de controle para disseminar narrativas distorcidas e manipular a percepção pública. Os danos atingem a essência da autonomia individual, desviando eleitores de escolhas informadas e conscientes. A normalização do caos gera um cidadão cada vez mais cético e desconfiado, criando um ciclo vicioso que ameaça o contrato social que fundamenta a própria democracia representativa no Brasil.
Embora o relógio da lei tenha escorrido, a defesa não pode ser negligenciada. As estratégias de campanha clássicas são obsoletas. O imperativo agora é consolidar mecanismos robustos, erguendo uma fortaleza invisível. A criação de uma estrutura autônoma e multidisciplinar — o que chamo de núcleo de blindagem e sala de guerra digital — não é um investimento estratégico, é um investimento existencial. É a única linha de defesa capaz de enfrentar a rapidez e a precisão das ofensivas digitais. A IA, que é a arma do adversário, deve se tornar nosso escudo mais poderoso. Mas, acima de tudo, a moralidade, a transparência e a educação do eleitor são as armas mais afiadas para edificar fortalezas cognitivas e manter a soberania popular intacta.
A responsabilidade por proteger a democracia é de todos. Em um cenário em que a lentidão da lei nos deixou expostos, a proatividade, a inteligência estratégica e a coragem de lutar pela integridade do processo eleitoral são as únicas garantias de que o pleito de 2026 será a genuína expressão da vontade popular, e não uma miragem digital manipulada. A história nos aguarda, mas não esperará por aqueles que se recusam a ver o futuro. A escolha entre construir uma defesa eficaz e ceder ao caos tecnológico definirá o futuro do Brasil que queremos — ou o país que tememos.
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