Suélia Fleury Rosa — membro sênior do Instituto de Engenheiros Eletricistas e Eletrônicos (IEEE)
Ao longo dos últimos anos, acompanhei o surgimento de inúmeras tecnologias promissoras na área da saúde. Projetos bem estruturados, provas de conceito funcionando, artigos publicados em revistas científicas relevantes, pilotos conduzidos com rigor metodológico. Ainda assim, a maioria das soluções nunca chega à ponta do sistema, nem às unidades básicas de saúde, ou aos territórios mais vulneráveis e, sobretudo, às pessoas que mais precisam.
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Essa frustração revela um problema estrutural, um abismo entre o piloto e o impacto real, e não surge por acaso. Com frequência, atribuímos o fracasso à falta de recursos, à burocracia do Estado ou à complexidade do sistema de saúde. Tais fatores existem, mas a origem do problema é mais profunda: está na forma como concebemos a inovação, como avaliamos o sucesso e como organizamos os caminhos entre ciência, política pública e implementação.
Grande parte das tecnologias em saúde nasce na academia, orientada por métricas que pouco dialogam com a realidade do sistema público. Publicar artigos, alcançar fatores de impacto elevados e cumprir exigências estatísticas rigorosas tornam-se, muitas vezes, o objetivo final. O impacto social aparece como consequência desejável, mas não como critério de sucesso.
Esse descompasso ajuda a explicar por que tantas soluções ficam presas ao piloto. Revisões internacionais recentes mostram que a maioria das iniciativas de saúde digital enfrenta dificuldades para escalar, mesmo quando demonstra eficácia em ambientes controlados. Barreiras como falta de interoperabilidade, infraestrutura insuficiente, ausência de capacitação profissional, fragilidade de governança e apoio institucional limitado continuam sendo apontadas como fatores decisivos para o fracasso da adoção em larga escala.
No Brasil, esse desafio se insere num contexto paradoxal. O país dispõe de um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo e de bases nacionais de dados capazes de sustentar estratégias avançadas de prevenção e coordenação do cuidado. Ainda assim, desafios de interoperabilidade, governança de dados e capacitação local continuam impedindo que esse potencial se traduza em impacto concreto.
Outro entrave recorrente está na fragmentação institucional. Ciência, saúde, regulação e indústria ainda operam de forma excessivamente compartimentada. Universidades desenvolvem tecnologias sem diálogo estruturado com gestores públicos. Órgãos reguladores entram tardiamente no processo. A indústria, quando participa, é acionada apenas nas fases finais, quando decisões fundamentais já foram tomadas.
Há também um equívoco persistente sobre o que significa validar uma tecnologia em saúde. Com frequência, a validação se limita à comprovação estatística de eficácia. No mundo real, o impacto envolve outras dimensões igualmente determinantes: facilidade de uso, adesão do paciente, integração aos fluxos existentes, custo de manutenção, capacitação das equipes locais e aceitação por parte dos profissionais de saúde.
Vale destacar que as barreiras organizacionais e culturais são tão relevantes quanto às técnicas. Resistência à mudança, sobrecarga de trabalho e ausência de treinamento adequado reduzem drasticamente a probabilidade de incorporação de novas ferramentas, mesmo quando elas têm potencial para melhorar o cuidado.
Tal cenário não é exclusivo do Brasil. Países de baixa e média renda enfrentam desafios semelhantes para transformar inovação em impacto, especialmente quando não há políticas públicas consistentes, governança clara e alinhamento entre os diferentes níveis do sistema de saúde.
Outro aspecto pouco discutido é o fator humano dentro das estruturas de inovação. Ego acadêmico, disputas por protagonismo e resistência à colaboração multidisciplinar frequentemente atrasam ou inviabilizam projetos. A inovação em saúde não avança por competição. Ela avança por cooperação, escuta e construção conjunta. E, quando esse alinhamento não acontece, a tecnologia deixa de ser meio e passa a ser fim. Surgem os chamados pilotos eternos — que consomem recursos, produzem relatórios e artigos, mas não transformam a realidade das pessoas.
Superar esse cenário exige uma mudança profunda de abordagem. Precisamos de integração, governança e incentivos à translação para que o piloto vire impacto real hoje.
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