Valerio Caruso — cônsul-geral da Itália no Rio Grande do Sul
Um artigo recente publicado no Correio Braziliense tratou da paradiplomacia, recorrendo a dados do ComexVis para ilustrar a emergência de "novos parceiros comerciais" do Rio Grande do Sul. A Bélgica foi citada como exemplo de redefinição estratégica, com uma intenção nobre: demonstrar como os estados brasileiros ampliam sua inserção internacional.
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O problema é que, em comércio exterior, nem toda estatística de "parceiro" revela uma parceria — muitas vezes, descreve apenas um corredor logístico. É o que definimos de efeito porto-hub: quando a geografia distorce a estatística. A participação belga nas exportações gaúchas (3,9% em 2025) é explicada pelo papel do Porto de Antuérpia como ponto de entrada e de registro aduaneiro para o mercado comum europeu. Pelo mesmo motivo, os Países Baixos aparecem em posição elevada (2,1%), impulsionados por Roterdã.
Esses portos funcionam como hubs de distribuição para toda a União Europeia: as mercadorias entram pela Bélgica ou Holanda, mas seu destino final são os grandes mercados consumidores do bloco — Alemanha, França, Itália e Espanha. Uma análise pouco rigorosa pode afirmar que Bélgica e Holanda — com populações de 11,5 e 17,5 milhões de habitantes, respectivamente — absorvem mais produtos gaúchos do que os outros países mencionados, que somam mais de 200 milhões de pessoas. Tomar esses dados como evidência de "parceria estratégica" é, no mínimo, confundir geografia comercial com geopolítica. Às vezes, o "parceiro" não é um país — é um porto.
Por isso, existe um mundo real além da estatística e que merece atenção justamente para não deixarmos de lado importantes referências. Nesse universo, os verdadeiros parceiros estruturais sustentam a cadeia. A Itália, por exemplo, figura entre os nove principais países exportadores para o Rio Grande do Sul em 2025, com 2,2% do total — sendo o segundo da União Europeia, atrás apenas da Alemanha (3,7%).
Mas o dado bruto não conta toda a história. A diferença entre a presença italiana e a de outros "parceiros" estatísticos reside na densidade institucional, no tecido empresarial consolidado e na capacidade de gerar investimentos bidirecionais. É aqui que a diplomacia comercial encontra sua verdadeira dimensão: não no registro portuário, mas na construção de pontes duradouras entre sistemas produtivos.
Em 2025, com o apoio decisivo da Embaixada da Itália em Brasília, reativamos a Câmara de Comércio Italiana no Rio Grande do Sul (CCIRS), uma instituição que havia perdido fôlego nas décadas anteriores, mas que hoje se apresenta como um dos principais ativos estratégicos para o aprofundamento das relações ítalo-gaúchas. Um movimento planejado a partir dos interesses comerciais entre os dois países.
Desde sua reativação, a CCIRS já conta cerca de 100 empresas associadas, abrangendo setores estratégicos, como agronegócio, energia renovável, metalomecânica, tecnologia e serviços, formando uma uma plataforma operativa, voltada para a facilitação de negócios, o mapeamento de oportunidades e a atração de investimentos — em um grande exemplo de paradiplomacia.
A implementação do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que promete remodelar as cadeias de valor transatlânticas e abrir espaço para fluxos de investimento bidirecional em escala inédita, cresce em importância nesse cenário.
Para o Rio Grande do Sul, representa uma oportunidade histórica. O estado tem vantagens competitivas em setores estratégicos para a Itália — proteína animal, grãos, energias renováveis, tecnologia agrícola. Ao mesmo tempo, necessita de investimentos em infraestrutura, inovação industrial e transição energética, áreas nas quais a Itália possui expertise reconhecida e capital disponível.
A presença italiana no RS é uma realidade histórica que se renova atualmente sob novas formas. A reativação da Câmara de Comércio Italiana no Rio Grande do Sul é a prova de que a verdadeira paradiplomacia está na capacidade de criar plataformas duradouras de cooperação econômica, cultural e tecnológica.
E, nesse sentido, a Itália não é um "novo parceiro". É um parceiro de sempre, agora mais organizado, mais estratégico e pronto para os desafios que o acordo Mercosul-UE trará. Porque, às vezes, o que a estatística não vê é, justamente, o que a diplomacia constrói.
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