Já abordei diversas vezes neste espaço os riscos e a toxicidade que emanam das redes sociais. Hoje, contudo, sinto a necessidade de me redimir: ocasionalmente, o feed nos permite respirar algo genuinamente positivo. No início deste carnaval — que segue arrastando multidões por todo o Brasil —, deparei-me com um vídeo publicado pela atriz Mariana Xavier. Em cerca de um minuto, a eterna Marcelina da franquia cinematográfica Minha mãe é uma peça propôs uma reflexão que fisgou minha atenção de imediato: o dilema das pessoas que amam a folia, mas atravessam momentos pessoais difíceis e se sentem perdidas em meio à alegria coletiva.
A reflexão é profunda e necessária. É preciso pontuar, contudo, que não se trata daquelas pessoas que simplesmente não gostam de celebrar o carnaval. Esses indivíduos geralmente estão bem resolvidos em alguma pousada isolada ou devidamente instalados no sofá com seus serviços de streaming e livros (ou mesmo apenas rolando o feed, o que não é um problema). O conflito real reside naqueles que nutrem uma paixão genuína pela festa, mas acabam sofrendo um desses baques imprevisíveis da vida justamente em fevereiro.
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Não me refiro a contratempos triviais, como o dever de trabalhar ou estudar enquanto os vizinhos se rendem ao churrasco e ao samba. Refiro-me àqueles golpes que paralisam o pensamento e drenam a energia vital. Mariana cita, por exemplo, um período em que enfrentava o término de um namoro às vésperas da folia de Momo. Nos comentários da publicação, o relato dos seguidores ampliava o cenário: como encarar o carnaval sob o peso do luto, de um diagnóstico de saúde preocupante ou de crises psicológicas? Às vezes, o cronômetro da vida simplesmente não está em harmonia com o calendário oficial.
Ter de processar sentimentos de perda, medo ou melancolia durante a "fervura" do carnaval é uma tarefa especialmente delicada. Existe uma sensação incômoda de que o mundo exerce uma pressão invisível para que sejamos felizes e festivos, independentemente das nossas dores internas. Ignorar o ruído externo, muitas vezes, é uma missão impossível; por outro lado, forçar a ida para o meio da "pipoca" na tentativa de cura costuma ser insustentável e gerar ainda mais exaustão emocional.
A solução, obviamente, não é se entregar ao isolamento absoluto e ao pranto. A estratégia mais eficaz é o que chamo de "levar na manha", ou seja, vivenciar o período com parcimônia e respeito aos próprios limites. O que isso significa na prática? Significa buscar o equilíbrio entre evitar a folia caótica dos blocos de rua e escapar da solidão opressiva de um quarto fechado.
Pense, por exemplo, em ir ao cinema nesta terça-feira. Ou, quem sabe, caminhar sem pressa pelo shopping, sentar-se em um café e observar o movimento. O segredo está em manter o contato com a vida lá fora, mas sem ser soterrado pelo barulho e pela euforia que, naquele momento, não ressoam com seu estado de espírito. Afinal, a vida acontece nos intervalos entre um carnaval e outro, e respeitar o próprio tempo é a maior das celebrações.
