ARTIGO

A URV da Saúde: mais valor, menos filas no SUS

A URV da Saúde pode representar o mesmo que a URV econômica representou para o Brasil: o resgate da noção de valor

» MARCELO QUEIROGA, Médico cardiologista e ex-ministro da Saúde

O debate sobre as filas para consultas, exames e cirurgias no Sistema Único de Saúde (SUS) voltou ao centro da agenda nacional. O tema mobiliza gestores, profissionais e a sociedade; e com razão. Milhões de brasileiros aguardam atendimento. Mas a questão central não é apenas reduzir filas de forma momentânea e oportunística. O desafio é garantir acesso contínuo, sustentável e de qualidade.

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 Essa distinção é o que separa políticas estruturantes de soluções improvisadas.

Entre 2020 e 2022, no governo Bolsonaro, o Brasil promoveu uma das mais relevantes atualizações da Tabela de Procedimentos do SUS das últimas décadas. Não foi um reajuste linear ou populista. Foi uma estratégia seletiva, orientada por prioridades clínicas, que fortaleceu áreas críticas como oncologia, nefrologia, cardiologia e cirurgias eletivas. O objetivo era enfrentar a defasagem histórica dos valores pagos pelo sistema, reconhecida por gestores públicos e prestadores.

 Quando a remuneração não cobre os custos reais, a consequência é previsível: redução da oferta, desorganização da rede e aumento das filas. Atualizar a tabela não é gasto. É investimento na capacidade do SUS.

 Após a pandemia, o país optou por programas emergenciais para ampliar a produção. Essas iniciativas podem trazer alívio temporário, mas a experiência internacional mostra que, sem reformas estruturais, o problema retorna. Filas diminuem por alguns meses e voltam a crescer. O sistema perde previsibilidade, e a pactuação interfederativa se fragiliza.

É nesse contexto que ganha relevância o chamado Plano Real da Saúde, em discussão liderada pelo senador Flávio Bolsonaro. A proposta parte de um diagnóstico claro: o maior gargalo da atenção especializada não é apenas a falta de recursos, mas a ausência de uma referência estável de valor que organize o financiamento, a contratualização e a regulação. Sobretudo quando consideramos que há bilhões de reais em recursos federais sem execução pelos entes subnacionais por ineficiência da administração pública.

Nos anos 1990, o Brasil vivia sob o fantasma da hiperinflação. Os preços mudavam diariamente, e o país havia perdido a noção de valor. A criação da Unidade Real de Valor (URV) foi o instrumento que permitiu realinhar preços, expectativas e contratos. Mais do que uma moeda, a URV devolveu previsibilidade e confiança, pois devolveu aos brasileiros a percepção de valor. Foi a âncora que possibilitou a transição para o Plano Real.

 Hoje, o SUS enfrenta um desafio semelhante. A fragmentação do financiamento, a defasagem da Tabela SUS e a desorganização do Teto de Média e Alta Complexidade (MAC) criaram um ambiente em que gestores e prestadores também perderam a referência de valor. Hospitais produzem sem previsibilidade, estados complementam de forma desigual e o acesso se torna cada vez mais heterogêneo.

 A chamada "URV da Saúde" propõe justamente essa âncora. Trata-se de estabelecer parâmetros técnicos de remuneração, indicadores de desempenho e critérios de qualidade que orientem o realinhamento progressivo dos tetos MAC e dos valores de referência do sistema. O objetivo não é apenas pagar mais, mas pagar melhor, com base em resultados e linhas de cuidado.

Essa agenda dialoga diretamente com o conceito de Value-Based Health Care (VBHC), que vem transformando sistemas de saúde no mundo. No Brasil, experiências como o QualiSUS Cardio e o QualiDOT, revogados na atual gestão da saúde, mostraram que é possível vincular financiamento a desfechos clínicos, como redução de mortalidade, menor tempo de espera e maior resolutividade. Ao premiar qualidade e eficiência, o sistema reduz desperdícios, aumenta a produtividade e melhora a experiência do paciente.

A URV da Saúde pode representar o mesmo que a URV econômica representou para o Brasil: o resgate da noção de valor. Valor para o paciente, que passa a ter acesso mais rápido e seguro. Valor para o gestor, que ganha previsibilidade. Valor para o prestador, que passa a ser remunerado de forma justa. E valor para o país, que melhora a eficiência do gasto público.

 O desafio da saúde brasileira não será resolvido com improviso. Exige planejamento, transparência e coragem para modernizar a gestão.

Reduzir filas é urgente. Mas devolver ao SUS a noção de valor é o que garantirá acesso permanente, equidade e sustentabilidade para as próximas gerações.

 

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