Visão do Correio

Um desafio urbano e climático no Brasil

Em um país cada vez mais urbano, não se pode pensar somente em construir casas. Deve-se concentrar esforços e investimentos para resolver os problemas estruturais que colocam os brasileiros em situação vulnerável a desmoramento e enchentes

Nas últimas décadas, a combinação entre urbanização acelerada, desigualdade social e mudanças climáticas tornou mais evidente um dos principais dilemas urbanos do Brasil: a permanência de milhões de pessoas em áreas de risco. Encostas instáveis e íngremes, margens de rios e terrenos sujeitos a deslizamentos ou enchentes se transformaram em locais de moradia para famílias que não encontram alternativas no mercado formal de habitação. A condição vem ganhando proporções tão grandes que deixou de ser uma característica das capitais e de cidades maiores, passando a assombrar os municípios pequenos a cada temporada de chuvas.

Tragédias recorrentes em diferentes regiões do país demonstram como a ocupação desordenada e irregular de territórios pode provocar perdas humanas e materiais significativas. Sem obras de contenção, drenagem ou planejamento, a presença em lugares inadequados aumenta a vulnerabilidade diante de eventos climáticos extremos, que atualmente são registrados com maior frequência.

Números levantados pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB) revelam a amplitude do cenário. A empresa pública, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, mapeou um total de 17.728 áreas de perigo — mais de 5,5 mil delas foram consideradas com risco muito alto e cerca de 12 mil, alto. A pesquisa começou em 2012 e, nesses 14 anos, 1,8 mil municípios passaram por avaliação. Em mais da metade — 961 deles —, ao menos um ponto de atenção foi identificado. São mais de 1,7 milhão de domicílios instalados em zonas de alerta, com 4,6 milhões de brasileiros vivendo na incerteza de um desastre. Ainda segundo o estudo, Minas Gerais, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os estados mais afetados, especialmente por deslocamentos de terra e inundações.

Especialistas consideram que urbanismo, programas eficientes de habitação social e organização das cidades são essenciais para reduzir a exposição da população a desastres naturais. A desigualdade socioeconômica, que empurra as famílias de baixa renda para habitações ambientalmente frágeis, e a falta de infraestrutura adequada também são apontadas como problemas a serem debatidos.

Esse contexto cruel, que assombra o país, não pode permanecer. O avanço das mudanças climáticas deve ser considerado, porém não pode ser justificativa para tragédias e, sim, motivação para agir. No Brasil, enfrentar os riscos urbanos exige mais do que obras emergenciais depois das ocorrências. Mudar definitivamente essa realidade requer políticas públicas consistentes, planejamento de longo prazo e integração entre diversos segmentos. Uma gestão que envolva a participação efetiva da sociedade também é fundamental.

O desafio é imenso, no entanto tem que ser encarado. Em um país cada vez mais urbano, não se pode pensar somente em construir casas. Deve-se concentrar esforços e investimentos para resolver os problemas estruturais que colocam os brasileiros em situação vulnerável a desmoronamentos e a enchentes. Acabar com os riscos não é apenas uma obrigação técnica: é um compromisso com o direito à vida e à dignidade. 

Mais Lidas