Giovanni Beviláqua — Doutor em economia pela Universidade de Brasília (UnB)
A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.
O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.
Quando transpomos essa lente para a realidade brasileira, em especial para os pequenos negócios, a potência do pensamento de Habermas torna-se clara e profundamente transformadora. Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da vida na economia. Enquanto as grandes corporações operam sob o domínio da racionalidade instrumental pura, o pequeno empreendedor sobrevive e prospera por meio do agir comunicativo. Nesses espaços, o valor não se reduz à transação financeira; ele se expande na construção de confiança, na formação de reputação e no reconhecimento mútuo. É uma economia enraizada nos territórios, onde o diálogo é o ativo mais valioso e a intersubjetividade é a base da sustentabilidade do negócio.
Essa perspectiva é revolucionária para a formulação de políticas públicas e para o desenvolvimento social. Habermas nos ensina, em sua obra monumental Direito e democracia, que a legitimidade de qualquer norma ou política depende da deliberação. No Brasil, contudo, ainda vivemos uma profunda exclusão comunicativa. A esfera pública econômica é frequentemente capturada por grandes interesses financeiros, enquanto os milhões de brasileiros que sustentam a economia real são tratados como meros destinatários de decisões tomadas em gabinetes distantes.
Uma sociedade verdadeiramente justa, inclusiva e próspera exige o que podemos chamar de justiça comunicativa. Isso significa reconhecer o pequeno empreendedor como um sujeito deliberativo legítimo. O desenvolvimento social não pode ser um pacote pronto entregue pelo Estado; ele deve ser o resultado de um consenso ético construído de baixo para cima, respeitando o capital social e simbólico de cada território. Quando falamos em acesso ao crédito, por exemplo, não estamos tratando apenas de liquidez financeira; estamos falando de autonomia. O crédito, sob a ótica habermasiana, deve ser um instrumento que fortalece o Mundo da vida, permitindo que o sujeito exerça sua capacidade de agir e transformar sua realidade, e não um mecanismo de pressão que aprofunda a colonização sistêmica.
Habermas nos instiga a pensar que a prosperidade não é um acúmulo solitário de capital, mas uma construção coletiva de sentidos e bem-estar. Uma economia plural é aquela que valoriza as muitas vozes de seus agentes e entende que o dinamismo econômico é indissociável do amadurecimento democrático. A racionalidade comunicativa nos oferece o caminho para uma gestão mais humana, onde a escuta e o entendimento mútuo superam a mera busca por resultados imediatistas e despersonalizados.
Honrar o legado de Habermas é trabalhar para que o Brasil real tenha não apenas o direito de produzir, mas o direito de falar e de ser ouvido. É acreditar que a reconstrução ética da economia brasileira passa pela valorização dos pequenos negócios como agentes de cidadania e racionalidade pública. Como ele mesmo defendia, a razão não se realiza no isolamento, mas no ruído produtivo do encontro entre iguais que buscam, por meio do diálogo, construir o mundo em que desejam viver. Que a nossa economia aprenda, finalmente, a ouvir a base que a sustenta.
