Devo ter lido a Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana mais de uma vez. Impressionei-me com o relato cruento que Pedro Juan Gutiérrrez traçou sobre Cuba do início da década de 1990, afetada por grave crise econômica após o colapso da União Soviética. Em meio à fome e à tentativa desesperada de sobrevivência, muitos cubanos resistiam a atravessar o Estreito da Flórida para recomeçar a vida nos Estados Unidos. Estavam umbilicalmente ligados à ilha caribenha, assim como uma árvore se sustenta sobre raízes fortes.
Cuba é um paradoxo em si mesma. Os carros da década de 1950, os prédios de arquitetura soviética e o vaivém de turistas norte-americanos pelas ruas e vielas de Habana Vieja são um contraste entre passado e presente. Estive na ilha 14 anos atrás para cobrir a visita da então presidente Dilma Rousseff.
Vi gente hospitaleira e sorridente, mas também melancólica. Famílias sentadas sobre a mureta do Malecón em um domingo de calor extenuante. Pichações e fotos alusivas à Revolução Cubana e às figuras de Ernesto Che Guevara e de Fidel Castro, que morreria quatro anos depois. Conversei com cubanos comprometidos com o ideário revolucionário, mas também com gente que sonhava em estender seus horizontes e conhecer o Brasil, por exemplo.
Cuba mergulha de novo na crise econômica, agora deflagrada pelo intervencionismo dos Estados Unidos na Venezuela, seguido pelo bloqueio ao envio de petróleo. A ilha caribenha merece ser livre das mazelas históricas de um regime falido, mas não dessa forma. O mesmo país que impôs um embargo sufocante à economia da ilha caribenha acena com um golpe de Estado.
Donald Trump afirmou, nesta segunda-feira, que terá a "honra" de tomar Cuba e de "fazer o que quiser". Aparentemente, o republicano pretende transformar o território cubano em apêndice de Miami, solapar o regime e tornar a ilha mais um bastião capitalista. Isso remonta ao colonialismo de séculos atrás. Se alguém imagina que Trump apenas pretende "salvar" Cuba do "comunismo", esquece-se que o Tio Sam busca lucro e posicionamento geoestratégico no Caribe.
Não me surpreenderia se, em alguns anos, resorts gigantescos com a marca Trump fossem construídos em Varadero, e estátuas do presidente americano apagassem o culto às figuras de Che e de Fidel. Não me causaria espanto se arranha-céus crescessem como monumentos ao capitalismo, descaracterizando o que Havana tem de mais charmoso e inquietante. Aos cubanos, apenas lhes resta endurecer, perdendo ou não um pouco da ternura. E não deixarem seduzir-se pelos arroubos de um presidente que acredita ser o dono do mundo.
