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Governar: o risco para inovar

Estudos do Ipea indicam que empresas apoiadas por instrumentos públicos ampliam significativamente seus quadros de pesquisa e desenvolvimento e internalizam capacidades tecnológicas, induzindo estratégias de longo prazo

» LUIZ ANTONIO ELIAS//Presidente da Finep

A política de inovação começa quando decisões precisam ser tomadas antes que seus resultados sejam conhecidos. Em um cenário global marcado por disputas tecnológicas, reorganização das cadeias produtivas e pressão por soluções em áreas estratégicas, a capacidade de lidar com esse tipo de decisão tornou-se fator central de competitividade. Para o Estado, o desafio não é evitar o risco, mas monitorá-lo e avaliá-lo ao longo do tempo.

A experiência internacional mostra que economias bem-sucedidas não delegaram a inovação integralmente ao mercado. Países como Alemanha, Estados Unidos, Coreia do Sul e China estruturaram estratégias em que o Estado atua como coordenador e investidor, criando condições para o avanço tecnológico mesmo quando os retornos são incertos ou de longo prazo. Nessas trajetórias, o risco é administrado por meio de critérios técnicos, instrumentos adequados e continuidade institucional.

Na América Latina, a inserção em setores intensivos em conhecimento permanece limitada. Dados recentes da Cepal indicam que a região responde por menos de 5% das exportações globais de bens de alta tecnologia e por menos de 2% das de serviços modernos. Em um contexto de reconfiguração das cadeias globais de valor, abre-se uma janela para reposicionamento em segmentos mais dinâmicos.

No Brasil, o debate oscilou entre a expectativa de que o setor privado assumisse os riscos da inovação e a adoção de políticas fragmentadas, com pouca articulação entre ciência, indústria e financiamento. Superar esse padrão exige tratar a inovação como processo contínuo, no qual ciência básica, pesquisa aplicada, engenharia de escala e produção industrial operem de forma integrada.

Tratar o risco como parte do processo não autoriza decisões sem avaliação qualificada. Políticas eficazes de CT&I dependem de seleção rigorosa, normas consistentes, acompanhamento técnico e avaliação contínua, com critérios de excelência, relevância econômica e impacto social.

Nessa direção, a Finep lançou 13 editais de subvenção econômica que somam R$ 3,3 bilhões em recursos não reembolsáveis, voltados a projetos alinhados à Nova Indústria Brasil, em áreas como agroindústria, saúde, infraestrutura, transformação digital, transição energética e defesa. Mais do que o volume, o aspecto central é a governança baseada no diálogo entre os atores. O programa Finep pelo Brasil prevê uma centena de encontros em capitais e cidades do interior para orientar empresas sobre acesso a instrumentos de crédito e apoio à inovação.

Outro avanço relevante é a convergência entre Finep e BNDES, permitindo combinar instrumentos ao longo de todo o ciclo da inovação e reduzir descontinuidades entre pesquisa, financiamento e escala produtiva. Desde 2023, as duas instituições destinaram R$ 57,7 bilhões para inovação na indústria, apoiando projetos de digitalização, modernização e desenvolvimento de tecnologias disruptivas.

Estudos do Ipea indicam que empresas apoiadas por instrumentos públicos ampliam significativamente seus quadros de pesquisa e desenvolvimento e internalizam capacidades tecnológicas, induzindo estratégias de longo prazo. Do ponto de vista fiscal, esses investimentos tendem a retornar em arrecadação superior ao valor aplicado.

O fortalecimento do Fundo Nacional de Ciência e Tecnologia amplia previsibilidade, escala e articulação entre governo, academia e setor produtivo, condição essencial para sustentar projetos estratégicos de médio e longo prazo. Universalizar a educação, fortalecer a soberania digital, elevar a produtividade e reduzir desigualdades regionais dependem da construção de capacidades tecnológicas sustentadas no tempo.

Governar o risco para inovar não é escolher vencedores arbitrariamente, mas construir instituições capazes de dialogar, avaliar e ajustar trajetórias tecnológicas ao longo do tempo. Em um mundo cada vez mais competitivo, o maior risco para o Brasil é deixar de investir, de forma criteriosa, em ciência e inovação e limitar sua capacidade de construir um futuro econômico e tecnológico próprio.

A inovação não é um ponto de chegada, mas um caminho sustentado por decisões consistentes, parcerias duradouras e compromisso coletivo com o desenvolvimento.

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