IVELISE LONGHI, arquiteta e urbanista pela UnB, especialista em Desenvolvimento Regional, ex-secretária de Estado de Desenvolvimento Urbano do Distrito Federal e integrante do CODESE-DF
A felicidade também tem endereço — e ela começa no planejamento das cidades.
A recente aprovação da revisão do Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) e o processo em curso de atualização das políticas de transporte e mobilidade (PDTM) colocam Brasília diante de uma oportunidade rara: repensar seu futuro urbano a partir de um critério muitas vezes negligenciado — a qualidade de vida das pessoas.
Essa reflexão ganhou ainda mais força no último dia 20 de março, quando a capital sediou o Congresso da Felicidade, em sintonia com o Dia Internacional da Felicidade, instituído pelas Nações Unidas. O encontro reforçou uma ideia essencial: felicidade não é apenas uma experiência individual, mas também um projeto coletivo — e, portanto, uma agenda pública.
Costumamos associar felicidade a algo íntimo. No entanto, ela é profundamente influenciada pelo ambiente em que vivemos. A forma como as cidades são organizadas, os espaços que oferecem e a maneira como nos deslocamos impactam diretamente nosso bem-estar. Em certo sentido, a felicidade também é uma construção urbana.
Esse debate se torna ainda mais urgente em um contexto marcado por um paradoxo: nunca estivemos tão conectados digitalmente — e, ao mesmo tempo, mais expostos ao isolamento na vida real. A vida mediada por telas ampliou conexões, mas reduziu, em muitos casos, os encontros cotidianos. Compartilhamos o mesmo espaço urbano, mas nem sempre convivemos.
É justamente nesse ponto que o planejamento urbano se torna estratégico. Cidades bem desenhadas podem funcionar como antídotos a esse isolamento, criando espaços que convidem ao encontro, à permanência e à convivência.
Há territórios que produzem o efeito oposto: longas distâncias entre moradia e trabalho, horas perdidas no trânsito e ausência de espaços públicos acolhedores. São lugares onde o cotidiano se torna exaustivo e a convivência desaparece.
Mas há também cidades que promovem bem-estar. A forma urbana e a mobilidade influenciam comportamentos, relações sociais e até o nível de estresse da população. Cidades mais felizes não surgem por acaso — são resultado de escolhas conscientes sobre como organizar o território e priorizar as pessoas.
Nesse contexto, instrumentos como o plano diretor e as políticas de mobilidade assumem papel decisivo. Eles orientam como a cidade cresce e como as pessoas vivem esse crescimento.
A revisão do PDOT e a atualização das políticas de transporte em Brasília caminham nessa direção. Ao tratar da ocupação do território, da sustentabilidade urbana e da integração entre atividades, esses instrumentos buscam promover um desenvolvimento mais equilibrado e atento à qualidade de vida.
Priorizar o transporte coletivo, os sistemas sobre trilhos, a caminhabilidade e a mobilidade ativa não é apenas uma decisão técnica — é uma escolha sobre o tempo e a vida das pessoas.
Menos tempo no trânsito significa mais tempo para a família, para o convívio e para a cidade. Planejar o território, portanto, não é apenas organizar espaços. É criar condições para o bem-estar. É reconhecer a felicidade como um indicador de desenvolvimento social e um objetivo legítimo das políticas públicas.
O verdadeiro sucesso de uma cidade não está apenas em seus indicadores econômicos, mas na forma como acolhe seus cidadãos e promove oportunidades de vida digna e plena.
O desafio do nosso tempo é claro: construir cidades que não apenas funcionem melhor, mas que permitam viver melhor. Em um ano eleitoral, essa agenda ganha ainda mais relevância. Os futuros candidatos ao governo devem incorporar de forma clara, em suas propostas, o compromisso com um planejamento urbano que promova qualidade de vida, reduza desigualdades e coloque as pessoas no centro das decisões.
Cidades com ruas caminháveis;
Com praças vivas e parques acessíveis;
Com espaços seguros, inclusivos e acolhedores.
Cidades onde as pessoas não apenas passem — mas permaneçam, convivam e se reconheçam.
Cidades, enfim, que promovam felicidade.
