MARCELO VITORINO, consultor emmarketing político eeleitoral
Imagine receber um vídeo no celular mostrando um candidato confessando algo grave. A imagem é nítida, o rosto é reconhecível, a voz é dele. Só que ele nunca disse aquilo. O vídeo foi fabricado por inteligência artificial em minutos. Você compartilha antes de descobrir. Seus contatos compartilham também. Até que alguém desminta, o estrago já está feito.
Esse não é um cenário futurista. É uma possibilidade concreta, que já se materializou em eleições pelo mundo e que vai estar presente no Brasil em 2026. A inteligência artificial chegou ao jogo eleitoral com potencial real de alterar a relação entre candidatos, eleitores e a própria democracia.
A partir de 2026, o Brasil opera com regras mais definidas sobre o tema. Nas eleições anteriores, o uso de inteligência artificial em campanhas era praticamente proibido. Agora é permitido, mas com regulação rígida. Em março deste ano, o TSE publicou a Resolução 23.755, que exige transparência, identificação dos conteúdos gerados por IA e veda os chamados deep fakes eleitorais, os vídeos e áudios sintéticos que colocam na boca de candidatos coisas que jamais disseram. É um passo concreto e necessário, mas é também o começo de uma conversa que a sociedade inteira ainda precisa ter.
Porque a mesma tecnologia que ameaça também democratiza. Um candidato a deputado com poucos recursos pode usar a inteligência artificial para elaborar conteúdo, analisar dados, planejar ações e se comunicar com o eleitor de forma competitiva com candidatos financeiramente muito mais fortes. Algo que até pouco tempo era exclusividade de campanhas bem financiadas. Nesse sentido, a IA tem potencial real de equilibrar uma disputa que historicamente sempre favoreceu quem tinha mais dinheiro.
O problema é que essa mesma porta, aberta para a democratização, é também a entrada para todo tipo de abuso possível. Os deep fakes evoluíram a ponto de confundir especialistas treinados para identificá-los. Não é exagero dizer que chegamos a um momento em que quase tudo pode ser fabricado artificialmente: imagens, vozes, vídeos, declarações, documentos. Uma Era da Incerteza, em que o eleitor não tem mais como confiar automaticamente no que recebe, seja pelo WhatsApp, pelas redes sociais, seja por plataformas de notícias.
Por décadas, o eleitor brasileiro aprendeu a filtrar propaganda, desconfiar de santinhos e reconhecer o exagero dos jingles. Esse senso crítico foi sendo construído ao longo de gerações de eleições. O desafio agora é que ele foi treinado para um ambiente que está desaparecendo. Distinguir uma fotografia real de uma imagem gerada por computador exige hoje um nível de atenção que a maioria das pessoas simplesmente não tem no ritmo acelerado do consumo de informação pelo celular. E o risco não é só o de acreditar no que é falso. É mais sutil: quando tudo pode ser falso, o eleitor começa a desconfiar também do que é verdadeiro.
Diante disso, cada ator do processo democrático vai precisar assumir um papel diferente. Partidos e candidatos terão que investir muito mais em velocidade de resposta digital, usando redes sociais, mecanismos de busca e as próprias ferramentas de IA para combater desinformação antes que ela se espalhe. A mídia tradicional vai precisar ocupar com mais força o papel de referência do que é verificado e real. Num cenário em que qualquer pessoa pode fabricar qualquer coisa, o jornalismo que apura, confronta e assina embaixo se torna mais valioso, não menos.
E o eleitor? Vai precisar desenvolver um novo hábito: perguntar, antes de compartilhar, de onde vem aquela informação e quem se beneficia com a sua circulação. Não é paranoia. É o mesmo processo de aprendizado que fez gerações anteriores entenderem que novela é ficção e que nem tudo que sai no jornal é imparcial. Teremos que aprender, coletivamente, que o que circula na internet pode não corresponder à realidade. E que a velocidade com que algo se espalha não diz nada sobre se é verdadeiro.
Esse aprendizado não é opcional. É a condição para que a democracia funcione num ambiente em que a mentira ganhou velocidade industrial. A tecnologia mudou. As regras começaram a mudar. Falta a consciência acompanhar.
