ARTIGO

O custo ambiental das guerras

A guerra, potencializada pela maquinaria da tecnologia, não destrói apenas sociedades — ela também destrói os sistemas naturais que sustentam a vida no planeta

Carlos Bocuchy, Presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam)

 

Em 1932, diante do avanço das tensões que levariam o mundo à Segunda Guerra Mundial, o físico Albert Einstein fez ao psicanalista Sigmund Freud a pergunta que permanece como uma das mais perturbadoras da história política moderna: por que a guerra? Freud respondeu que a civilização vive permanentemente sob a tensão entre duas forças: os impulsos de cooperação e os impulsos de destruição. 

O progresso político e institucional, segundo ele, consistiria em autoridade moral, ética, em processo de fortalecimento supranacional na perspectiva de conter a violência por meio do direito, das instituições e da cooperação internacional.

Vivemos hoje uma situação oposta, especialmente diante do protagonismo político do governo de Donald Trump, que vem atentando contra o multilateralismo global e enfraquecendo instâncias supranacionais, como a ONU e a OMS, além de minar tratados internacionais, como o Acordo de Paris. 

O mundo contemporâneo revela uma dimensão que ambos, Freud e Einstein, apenas começavam a revelar: a guerra, potencializada pela maquinaria da tecnologia, não destrói apenas sociedades — ela também destrói os sistemas naturais que sustentam a vida no planeta. Os conflitos armados contemporâneos deixaram de ser apenas crises políticas ou militares; tornaram-se eventos ecológicos de grande escala.

A militarização é risco ambiental sistêmico. O problema não se limita aos impactos diretos da guerra, envolve a própria estrutura militar global, que movimenta anualmente, formal e informalmente, quase 3 trilhões de dólares.

Hoje são quase duas centenas de conflitos armados ativos no mundo. Nos últimos anos, cerca de 120 milhões de pessoas foram deslocadas à força por guerras, perseguições e violência.

Para além dos aspectos humanitários, existe um impacto ainda menos visível: a devastação ambiental acumulada que acompanha cada conflito armado. Bombardeios, incêndios industriais, destruição de infraestrutura, contaminação química e deslocamentos populacionais produzem transformação profunda nos ecossistemas.

Florestas desaparecem, solos tornam-se improdutivos, rios e territórios inteiros são contaminados — e a atmosfera é carregada de carbono. Regiões inteiras e o ambiente planetário passam a carregar riscos ambientais e impactos severos que podem persistir por décadas. No aspecto climático, por centenas de anos. Além da irreversibilidade, trazida pelo rompimento da capacidade de suporte dos limites planetários.

Na Ucrânia, extensas áreas agrícolas e florestais foram contaminadas por minas terrestres e munições não detonadas. Bombardeios provocam incêndios, a emissões de poluentes, a destruição de instalações industriais e estruturas de saneamento, poluindo solos e rios.

Na Faixa de Gaza, a destruição de edifícios, estradas e sistemas de saneamento produziu milhões de toneladas de detritos contaminados por substâncias perigosas. O colapso da infraestrutura sanitária agravou riscos de doenças e comprometeu severamente a qualidade ambiental.

No caso do Irã, a escalada militar na região está ampliando os riscos ambientais associados à geopolítica contemporânea. O país ocupa posição estratégica no Golfo Pérsico, uma das áreas mais sensíveis do planeta do ponto de vista energético e ecológico. Um conflito ainda maior na região poderia desencadear impactos ambientais de grande magnitude.

Ataques a terminais petrolíferos, refinarias ou navios-petroleiros provocariam derrames massivos de petróleo, afetando ecossistemas marinhos extremamente vulneráveis. Durante a Guerra do Golfo, centenas de poços de petróleo foram incendiados no Kuwait, liberando enormes quantidades de poluentes na atmosfera e provocando um dos maiores desastres ambientais da história militar.

O conflito com o Irã pode repetir ou até ampliar esse tipo de impacto. Ressalte-se os impactos sinérgicos e cumulativos com emissões de carbono e outros gases de efeito estufa em larga escala. Estudos indicam que as atividades militares respondem por cerca de 5,5% das emissões globais de gases de efeito estufa — um volume comparável às emissões de grandes economias industriais. Parte significativa dessas emissões permanece fora das obrigações internacionais de reporte climático.

Tanto o Protocolo de Kyoto quanto o Acordo de Paris permitem exceções relacionadas à segurança nacional, o que reduz a transparência sobre o impacto climático das atividades militares. A atual instabilidade geopolítica global turbina a máquina de guerra. Mesmo em tempos de paz, esse aparato já representa pressão ambiental significativa. A China acaba de anunciar que aumentará em US$ 20 bilhões seu investimento no aparato militar de defesa. 

O desafio civilizatório colocado na resposta de Freud a Einstein sugere que a superação da violência depende do fortalecimento de instituições capazes de limitar o uso da força. No século 21, essa reflexão precisa ser ampliada. 

A governança internacional não pode mais tratar segurança, clima e meio ambiente como temas separados. A destruição ambiental provocada pela guerra demonstra que a segurança ecológica é parte integrante da segurança humana.

Preservar os ecossistemas em tempos de paz — e protegê-los evitando os conflitos — tornou-se uma das tarefas mais urgentes da governança global no século 21.

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