*Por Wadih Damous, diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS)
No Dia Mundial da Saúde, celebrado em 7 de abril, o setor de saúde suplementar brasileiro encontra-se diante de encruzilhada que exige visão estratégica. O modelo assistencial majoritário, focado na reação ao evento agudo e no tratamento tardio da doença instalada, sinaliza esgotamento sistêmico. Em cenário pressionado por inflação médica que supera os índices gerais e por transição demográfica acelerada, a prevenção e a promoção da saúde deixaram de ser acessórias para se tornarem alicerce inegociável da sustentabilidade do ecossistema.
O paradigma atual é oneroso e ineficiente. Grande parte das despesas assistenciais das operadoras concentra-se no manejo de complicações evitáveis de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes, hipertensão e obesidade. Essas condições são, em sua maioria, passíveis de controle muito antes que evoluam para episódios de internações e procedimentos de alta complexidade. O custo da negligência preventiva é pago em moeda, em perda de funcionalidade e autonomia dos pacientes.
Promover saúde é gerir riscos com inteligência. Isso exige mudança de cultura institucional. Devemos transitar do modelo de pagamento por volume, que, muitas vezes, incentiva o excesso de exames desnecessários, para a lógica de geração de valor em saúde. Quando antecipamos riscos por meio do uso inteligente de dados, da interoperabilidade e do monitoramento contínuo, preservamos a saúde financeira das operadoras e garantimos dignidade e qualidade aos beneficiários que confiam no sistema.
Essa transformação não ocorre no vácuo. Não podemos discutir prevenção de forma isolada das condições concretas do cotidiano das pessoas. O ambiente corporativo, onde reside a maior parcela dos usuários dos planos coletivos empresariais, é cenário dessa metamorfose. A saúde do trabalhador é motor da economia e o adoecimento laboral, gargalo que compromete a competitividade do país.
Assim, o debate sobre saúde mental e jornadas de trabalho ganha relevância sem precedentes. Discussões sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional e a revisão de escalas exaustivas são hoje pautas indissociáveis da agenda regulatória da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Jornadas que não permitem o descanso restaurador, a prática de atividades físicas e o convívio social funcionam como fábricas de sinistros. O absenteísmo, o presenteísmo e o burnout são sintomas de modelo que negligenciou o bem-estar como ferramenta preventiva.
A tecnologia já oferece o arsenal necessário para essa virada. Programas de medicina preventiva e integração de dados por meio da inteligência artificial (IA) já permitem identificar quem está prestes a descompensar. No entanto, ainda esbarramos no obstáculo cultural do engajamento. Sem a adesão do indivíduo, a tecnologia é subutilizada.
O desafio é coletivo e exige uma tríade de responsabilidades: as operadoras devem migrar para modelos de remuneração baseados em desfechos clínicos, investindo em atenção primária à saúde robusta, que coordene o cuidado; as empresas contratantes precisam compreender que o plano de saúde não é um custo de gestão de pessoas, mas ferramenta estratégica de produtividade; e os beneficiários necessitam ser empoderados com letramento em saúde, tornando-se protagonistas de sua jornada.
A ANS reafirma seu papel fundamental como indutora de boas práticas. Incentivar programas de promoção à saúde auditáveis e que tragam resultados clínicos reais é o caminho para que o setor prospere.
Neste Dia Mundial da Saúde, deixo uma reflexão: a saúde não começa no hospital ou na mesa de cirurgia. Começa no prato de comida, na qualidade do sono, no equilíbrio da jornada de trabalho e na prevenção primária. Investir preventivamente não é um custo a ser reduzido, mas o único investimento capaz de garantir que o sistema de saúde suplementar continue existindo para as próximas gerações. O futuro da saúde no Brasil não será escrito com bisturis, mas com as escolhas conscientes que fazemos hoje.
