ARTIGO

A primeira campanha eleitoral da pós-realidade

Um aspecto da eleição húngara que nos interessa de perto é o uso intenso de recursos de inteligência artificial (IA) na propaganda do primeiro-ministro, Viktor Orban. O baixo nível impera

José Vicente Pimentelembaixador aposentado 

 

No próximo domingo, dia 12, as atenções do mundo estarão voltadas para as eleições parlamentares na Hungria. Embora não tenha relevância econômica, o país se tornou um símbolo do movimento global autocrático-religioso de extrema-direita, que o seu primeiro-ministro, Viktor Orban, prefere qualificar de iliberal.

Quando o Pacto de Varsóvia se dissolveu em 1991, havia expectativas generalizadas de que a Hungria emergiria rapidamente da pobreza a que havia sido relegada pelo regime soviético. Não foi o que aconteceu. Pelas estatísticas da União Europeia (UE), ela é hoje um dos mais pobres países europeus. A produção industrial vem decaindo, o desemprego é galopante e a população vem diminuindo. Dois terços da população consideram o sistema educacional ruim ou péssimo, o sistema de saúde pública está decadente, muito em consequência da migração de médicos. Para piorar, nos últimos três anos a Hungria transformou-se no país mais corrupto da UE. Mesmo o "índice de liberdade econômica", publicado pela conservadoríssima Heritage Foundation, considera a Hungria o pior país europeu no quesito integridade governamental.

A despeito disso, o prestígio de Orban junto às principais lideranças da direita mundial segue inabalável. Sua atual campanha eleitoral recebeu o endosso dos líderes da direita alemã, holandesa, polonesa e até do insólito Javier Milei. Marco Rubio esteve em Budapeste para sublinhar o apoio de Trump, que considera Orban o seu maior aliado na Europa. Dois outros amigos importantes são Vladimir Putin, que vem recebendo a ajuda de Orban para bloquear ajuda militar da UE à Ucrânia, e Jair Bolsonaro, que declarou considerar Orban "praticamente um irmão". 

Segundo Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, "a Hungria moderna é não apenas um modelo, e, sim, O modelo de governança conservador". O Projeto 2025 da Heritage inspirou-se no modelo húngaro, que privilegia técnicas de comunicação agressivas, ou guerras culturais. Orban potencializa o medo. Há anos dirige a opinião pública contra bodes expiatórios que, a rigor, não têm impacto direto no cotidiano dos cidadãos. Um desses é a imigração, transformada pela retórica oficial na grande ameaça ao bem-estar do povo, apesar de não existirem no país imigrantes em número estatisticamente considerável. O inimigo externo (é muito útil ter um...) é a Ucrânia de Zelensky. Outro alvo habitual é a ideologia de gênero. A repulsa ao movimento feminista e LGBTQ é trabalhada sobretudo pelo lado da religiosidade: esses movimentos seriam indignos, por contrariarem a Bíblia.

Em 16 anos ininterruptos de governo, Orban desenvolveu as ferramentas para se assenhorear das instituições. Várias vezes emendou a Constituição e alterou as regras eleitorais em benefício do seu partido político, o Fidesz; interveio no serviço público, substituindo funcionários; desarticulou o Poder Judiciário, nomeando juízes alinhados com as teses ultradireitistas; aplicou pressão econômica e criou regulamentações específicas para enfraquecer a liberdade de imprensa; fez aprovarem-se leis que limitam os direitos das minorias; retirou fundos de apoio a universidades; e forçou a Universidade Centro-Europeia, fundada por George Soros, a transferir-se para Viena. 

Esse é, em síntese, o modelo decantado por Kevin Roberts e seguido hoje como uma cartilha pelo Partido Republicano, nos EUA.

E eis que as pesquisas eleitorais indicam que, agora, o Fidesz poderá perder para o Tisza, partido liderado por Peter Magyar, que também é de direita, porém moderado, em particular no cenário europeu. Caso vença, a Europa deverá liberar-se do veto húngaro e voltar a falar com uma só voz nas questões geopolíticas.

Um aspecto da campanha eleitoral húngara que nos interessa de perto é o uso de recursos de inteligência artificial (IA) na propaganda de Orban. A utilização é tão intensa que a escritora Anne Applebaum a qualificou de "primeira campanha política da pós-realidade". A imagem de Orban quase não aparece. Cede lugar a vídeos de tik tok com versões de Zelensky ou Peter Magyar contando dinheiro, cheirando cocaína ou tripudiando de militares húngaros. O baixo nível impera.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com certeza, acompanha o desenrolar da campanha eleitoral húngara. Dada a probabilidade da aplicação de golpes baixos semelhantes nas nossas eleições de novembro, é essencial preparar-nos para neutralizar as transgressões e punir os transgressores.

 

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