OPINIÃO

O 'Se quiser vim vê' ficou insuportável

"O meme, que deveria ser um elemento de conexão e subversão cultural, acaba por se tornar uma algema da expressão pessoal, limitando o horizonte criativo de quem produz e empobrecendo o repertório de quem consome"

Sim, o mundo enfrenta diversas guerras neste exato momento. A emergência climática deixou de ser uma previsão para se tornar uma realidade de danos irremediáveis. Diante de um cenário global tão hostil, pode parecer fútil dedicar tempo para analisar uma trend de redes sociais, mas peço que não abandone esta leitura. É fundamental discutirmos como os vídeos do "Se quiser vim vê" tornaram-se onipresentes e, para muitos, insuportáveis — e como esse fenômeno é um sintoma social que merece atenção.

É improvável que você tenha passado ileso por essa brincadeira no feed, mas, por precaução, explico a mecânica. A premissa consiste em alguém apresentando um serviço, produto ou empresa com um desânimo quase existencial. O apresentador utiliza um tom de desdém absoluto pelo negócio, o que confere ao vídeo um caráter jocoso. O contraste entre a necessidade de vender e o descaso em convencer gera o humor.

Não é claro de onde o meme surgiu (ou quando), mas é inegável que ele ficou onipresente. O excesso, no entanto, transformou a piada em um ruído. A saturação é tamanha que o conteúdo beira o insuportável. Surge a necessidade de refletir: por que o "se quiser vim vê" se multiplicou de forma tão exponencial?

As explicações derivam de várias vertentes, mas há uma verdade inconveniente que resume o cenário: a criatividade humana parece estar sendo sistematicamente ceifada. Quando o ato de criar se torna um fardo, a saída mais imediata e segura é a cópia.

Nesse ecossistema, a lógica das redes sociais e da comunicação digital atua como um catalisador potente. A ditadura do engajamento e a busca incessante por curtidas transformam tudo em objeto de cópia, mesmo quando o formato já exauriu seu potencial cômico. Replicar uma estrutura de vídeo que comprovadamente funciona não é apenas mais fácil; é uma estratégia de sobrevivência algorítmica. É o caminho do menor esforço em busca do maior lucro de atenção.

Esse raciocínio, contudo, não é uma novidade absoluta. Ele é o mesmo motor que impulsiona a onda interminável de remakes, reboots e sequências nos cinemas e no streaming. A diferença preocupante é que, nas redes sociais, esse comportamento deixou de ser uma estratégia comercial de grandes estúdios para se tornar um modus operandi coletivo e descentralizado. Não se trata mais de uma elite de produtores em Hollywood apostando no seguro para evitar prejuízos. Agora, é uma regra seguida por milhões de usuários e replicada em plataformas consumidas por outros bilhões. O medo de arriscar o novo tornou-se uma patologia digital.

Essa padronização do pensamento e da estética reflete uma sociedade exausta, que prefere o conforto do reconhecimento ao desafio da descoberta. Quando todos repetem a mesma frase, com a mesma entonação e a mesma edição, perdemos a capacidade de distinguir vozes individuais no meio do barulho. O meme, que deveria ser um elemento de conexão e subversão cultural, acaba por se tornar uma algema da expressão pessoal, limitando o horizonte criativo de quem produz e empobrecendo o repertório de quem consome.

Mais Lidas