ARTIGO

Brasília completa 66 anos sob o desafio de cuidar do futuro

Brasília precisa ser referência de convivência democrática, espaço de diálogo entre diferenças e território de produção de consensos mínimos

Maria Fátima Sousaprofessora titular do Departamento de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB)

Brasília chega aos 66 anos como uma obra consagrada na paisagem e na memória nacional, mas ainda inacabada em seu sentido mais profundo. Não porque lhe falte forma, monumentalidade ou reconhecimento histórico, mas porque toda cidade que se pretende democrática precisa ser permanentemente refeita por seus habitantes, por suas instituições e por sua capacidade de sustentar valores públicos. Brasília não é apenas um feito arquitetônico, mas uma tarefa ética e política.

Nascida de um projeto de interiorização do país e erguida pelo trabalho de brasileiras e brasileiros de diferentes regiões, a capital traz em sua origem uma marca profundamente coletiva. Nos traços de Lucio Costa e Oscar Niemeyer, desenhou-se uma utopia moderna; nas mãos dos candangos, essa utopia ganhou corpo, voz e vida. Celebrar Brasília é, portanto, reconhecer aqueles que lhe deram humanidade e densidade social, muito além do concreto, das largas avenidas e dos monumentos que a tornaram singular no mundo.

Mas nenhuma cidade se sustenta apenas por sua beleza. Monumentos, sozinhos, não garantem justiça, pertencimento ou dignidade. Uma capital da República precisa ser medida também pela coerência entre suas instituições e as necessidades do povo, pela forma como protege a vida, valoriza o bem comum e faz prevalecer o interesse público sobre conveniências particulares. Quando esses princípios enfraquecem, a cidade perde algo de essencial: seu compromisso com a coletividade.

É nesse ponto que a vigilância cidadã se torna decisiva. Não como simples suspeita, mas como expressão madura de responsabilidade democrática. Vigiar a cidade é cuidar dela, acompanhar a gestão pública, exigir integridade, recusar o desvio de recursos, defender políticas sociais consistentes e afirmar que a vida pública não pode ser capturada pela indiferença, pelo privilégio ou pelo cálculo estreito de interesses. A vigilância cidadã é um gesto de pertencimento e de compromisso com o futuro.

Por sediar os Poderes da República, Brasília carrega um peso simbólico ainda maior. Aquilo que aqui se normaliza ecoa para o restante do país. O que aqui se corrige também pode irradiar esperança. Por isso, a capital não deve ser apenas centro administrativo ou palco institucional, precisa ser referência de convivência democrática, espaço de diálogo entre diferenças e território de produção de consensos mínimos, capazes de sustentar a vida pública em tempos de fragmentação, radicalização e descrença.

Essa reflexão se fortalece quando observamos os dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios Ampliada, 2024. O Distrito Federal reúne hoje quase 3 milhões de habitantes em 35 regiões administrativas, realidade que ultrapassou há muito os horizontes originais do planejamento da capital. A mesma pesquisa mostra avanços importantes, como o amplo acesso à água, à internet e ao esgotamento sanitário, mas também evidencia desigualdades persistentes no cotidiano, como o descarte inadequado de entulho, esgoto a céu aberto, alagamentos em períodos de chuva e uma dinâmica urbana fortemente marcada pela concentração de trabalho no Plano Piloto e pela dependência do automóvel. Esses dados revelam que pensar o futuro de Brasília exige olhar além e enfrentar, com seriedade, os desafios da moradia, da mobilidade, da infraestrutura e da justiça territorial.

Cuidar de Brasília, portanto, exige uma convocação ampla, firme e generosa. É tarefa da sociedade civil, das universidades, de trabalhadores, da juventude, das mulheres, dos movimentos sociais, dos setores comprometidos com o desenvolvimento e dos gestores públicos que compreendem a política como serviço, e não como apropriação. Uma cidade do bem-viver não nasce pronta, nem se mantém viva sem o trabalho cotidiano de muitas mãos. Ela se constrói no cuidado consigo, com o outro e com o que pertence a todos.

Esse cuidado se expressa na defesa do serviço público de qualidade, na valorização da saúde, da educação e da cultura, na proteção do meio ambiente, na redução das desigualdades e na promoção de espaços mais humanos e inclusivos. Também se manifesta na recusa à apatia, na disposição para o diálogo e na escolha da solidariedade como prática social. Uma cidade só se torna verdadeiramente pública quando deixamos de ser meros espectadores e assumimos o protagonismo à reconstrução cotidiana.

Ao completar 66 anos, Brasília nos devolve uma pergunta simples e profunda: que cidade queremos daqui para frente? A resposta não virá apenas dos gabinetes, nem dos ritos comemorativos, nem de novos projetos urbanísticos. Ela nascerá da capacidade de reconstituirmos os vínculos que nos unem em torno de um destino comum e da coragem de recolocar no centro da vida pública valores que não podem ser negociados: ética, integridade, respeito à dignidade humana, justiça e responsabilidade com as futuras gerações.

Mais do que comemorar, este aniversário convida a retomar o sentido de futuro que marcou a criação de Brasília. Amar a cidade não é negar seus problemas, mas assumir o compromisso de enfrentá-los com firmeza, lucidez e generosidade. O que definirá os próximos anos da capital não será apenas a imponência de sua imagem, mas a capacidade de construir, no dia a dia, um projeto comum para sua gente.

 

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