O avanço impressionante da inteligência artificial (IA) escancarou a inércia regulatória global. O uso de sistemas de IA alcançou 53% da população global em meros três anos, uma velocidade de adoção que supera com folga marcos históricos, como a disseminação do computador pessoal e da própria internet.
Os dados mais recentes do "AI Index Report", da Universidade de Stanford, revelam que a esperança acompanha essa marcha acelerada. O otimismo em relação à tecnologia subiu para 59% em 2025, com o Brasil despontando entre os mais entusiasmados na aposta de novos empregos, registrando 61%.
O problema central, contudo, é que essa empolgação popular esbarra na concretude dos fatos. Até o momento, as ferramentas evoluem em velocidade vertiginosa e concentram lucros, enquanto as prometidas melhorias práticas no cotidiano, na redução do custo de vida e na carga de trabalho, além do aumento na segurança da sociedade, permanecem como miragens distantes.
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O alerta de que estamos trilhando um caminho perigoso vem do próprio epicentro da inovação. Nos Estados Unidos, país que concentra os maiores investimentos privados no setor, o pessimismo popular dita a regra. Apenas 17% dos americanos acreditam que a inteligência artificial trará impactos positivos para os trabalhadores. Mais grave é a fratura exposta entre criadores e consumidores: enquanto 73% dos especialistas afirmam que o trabalho será aprimorado, escassos 23% do público concordam com a premissa.
O mesmo abismo se reflete na saúde. Esse ceticismo contamina a confiança institucional, com apenas 31% dos cidadãos acreditando na capacidade de Washington de impor limites às big techs. Essa abstenção regulatória americana reverbera globalmente, impondo um padrão de leniência que atinge de forma implacável as economias em desenvolvimento.
Neste exato momento, enquanto o mundo se distrai com as novidades de cada nova versão de software, a inação dos governos pavimenta um terreno conhecido. Há pouco tempo, a sociedade foi seduzida pelo discurso de modernidade e eficiência da gig economy. Na ocasião, a ausência de regras prévias e a lentidão do poder público resultaram em uma "uberização" generalizada que desestruturou setores econômicos inteiros sob o pretexto da flexibilidade.
Permitir que o mesmo roteiro de omissão se repita com a inteligência artificial — cujo potencial de disrupção afeta todos os estratos produtivos da sociedade — não é apenas um erro administrativo, mas uma escolha consciente pela insegurança jurídica.
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O tempo útil para estabelecer um cerco civilizatório à tecnologia está em contagem regressiva. O pragmatismo exige ação imediata; não há espaço para celebrar fóruns teóricos ou promessas voluntárias de autorregulamentação formuladas por quem lucra com a ausência de regras. A urgência reside em criar legislações firmes que protejam a sociedade e estruturem o mercado de trabalho antes que o dano se torne sistêmico e irreversível. Se as instituições mantiverem a atual letargia, limitando-se a correr atrás do prejuízo quando as estruturas já estiverem esfaceladas, o choque de realidade será severo. O preço dessa negligência será cobrado, invariavelmente, da população — a mesma que hoje ainda espera que os algoritmos lhes entreguem um futuro melhor.
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