Falar da transformação da China nas últimas décadas é lidar com uma escala difícil de sintetizar. Em pouco mais de 40 anos, o país deixou de ser uma economia predominantemente rural e de baixa renda para se tornar uma das principais potências econômicas, industriais e tecnológicas do mundo. Duas cidades ajudam a contar essa história de forma quase didática: Shenzhen e Chongqing.
Shenzhen simboliza a ruptura. Até o fim dos anos 1970, era uma pequena vila de pescadores, localizada na província de Guangdong, próxima a Hong Kong. Foi ali que a liderança chinesa decidiu experimentar um novo modelo de desenvolvimento, baseado na abertura ao capital estrangeiro, na atração de investimentos, na criação de zonas industriais e na incorporação de tecnologia. Ao ser transformada na primeira Zona Econômica Especial da China, Shenzhen tornou-se um verdadeiro laboratório de reformas — um espaço onde era possível testar, ajustar e expandir políticas que, depois, seriam replicadas em outras regiões do país.
O resultado foi uma transformação vertiginosa. Em poucas décadas, Shenzhen passou de periferia agrícola a uma metrópole global, com infraestrutura moderna, alta densidade urbana e forte inserção nas cadeias produtivas internacionais. Mais do que um polo industrial, a cidade evoluiu para um centro de inovação, concentrando empresas de tecnologia de ponta, como Huawei, BYD e Tencent, e um sistema dinâmico de startups, pesquisa e desenvolvimento. Shenzhen passou a representar não apenas a abertura econômica da China, mas também sua capacidade de aprender rapidamente, adaptar-se e avançar para setores de maior valor agregado.
Se Shenzhen expressa o movimento de abertura e modernização voltado para o mundo, Chongqing representa a continuidade e a interiorização desse processo. Localizada no coração do país, às margens do Rio Yangtzé, Chongqing é um dos quatro municípios diretamente subordinados ao governo central chinês, possuindo status administrativo equivalente ao de uma província. Com uma população de dezenas de milhões de habitantes em sua área administrativa, a cidade se destaca não apenas por sua escala, mas também por seu papel estratégico no desenvolvimento nacional.
Historicamente distante do dinamismo econômico do litoral, Chongqing tornou-se um dos principais eixos da política chinesa de redução das desigualdades regionais. A partir dos anos 2000, com iniciativas voltadas ao desenvolvimento do oeste e do interior, a cidade recebeu investimentos maciços em infraestrutura, indústria, logística e urbanização. Pontes, vias expressas, portos fluviais e sistemas de transporte de alta complexidade passaram a integrar uma paisagem urbana marcada por montanhas, rios e densidade populacional extrema — cenário que deu origem a soluções arquitetônicas e de mobilidade únicas, como o famoso trem que atravessa edifícios residenciais.
Além de seu papel industrial, Chongqing consolidou-se como um importante hub logístico, conectando o interior da China a mercados internacionais por meio de corredores ferroviários e fluviais. Sua inserção em iniciativas como a Nova Rota da Seda reforça sua função como elo entre diferentes regiões e como plataforma de integração econômica. Dessa forma, Chongqing simboliza a China que expandiu seu modelo de desenvolvimento para além da costa, incorporando novas regiões ao crescimento e ampliando o alcance de sua transformação estrutural.
A complexidade e a diversidade do país não cabem em dois exemplos. Mas essas duas cidades condensam, de maneira clara, os principais vetores do desenvolvimento chinês nas últimas décadas: de um lado, a abertura ao mundo, a industrialização e a inovação tecnológica; de outro, a interiorização do crescimento, a integração territorial e a redução das desigualdades regionais.
Entre arranha-céus futuristas que se erguem à beira do mar e megacidades que se expandem entre montanhas e rios no interior do país, Shenzhen e Chongqing oferecem uma síntese poderosa da trajetória recente da China. Mais do que exemplos isolados, são expressões concretas de um projeto nacional de desenvolvimento que combina planejamento de longo prazo, adaptação estratégica e capacidade de execução em larga escala. Observá-las é compreender o que a China se tornou, os caminhos que escolheu para chegar até aqui e aqueles que pretende trilhar no futuro.
