ARTIGO

Asma no Brasil: respirar não pode ser privilégio

A prevalência da asma no Brasil está entre as mais altas do mundo. Garantir acesso universal ao tratamento não é apenas uma questão médica — é questão de justiça social e saúde pública

Emílio Pizzichini coordenador da Comissão de Asma da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) 

A asma é a doença respiratória crônica mais frequente em todas as idades e, ainda assim, uma das mais negligenciadas no diagnóstico e no acesso ao tratamento. No Brasil, cerca de 20 milhões de pessoas convivem com a doença que, sem acompanhamento adequado, provoca crises respiratórias recorrentes, tosse, chiado, falta de ar, limitações nas atividades diárias e frequentes atendimentos de urgência e hospitalizações. Apesar de ser controlável, a asma ainda mata entre cinco e sete brasileiros por dia — mortes em grande parte evitáveis por políticas públicas mais efetivas e educação da população.

A asma é caracterizada por inflamação crônica das vias aéreas e pode se manifestar de diferentes formas, com sintomas variáveis em frequência e intensidade. Estudos recentes mostram que a prevalência da doença no Brasil está entre as mais altas do mundo, especialmente em regiões urbanas, onde poluição, umidade e condições precárias de moradia agravam os sintomas. Crianças, idosos e populações vulneráveis sofrem de forma desproporcional. 

A mortalidade por asma diminuiu nas últimas décadas, mas permanece inaceitável. Mais de 2 mil brasileiros morrem por ano em decorrência de crises asmáticas, e grande parte dessas mortes poderia ser evitada com diagnóstico precoce, acompanhamento regular e uso correto de medicamentos controladores. Estima-se que cerca de 80% dessas fatalidades possam ser prevenidas com cuidado adequado.

O impacto da doença no país é profundamente marcado por desigualdades regionais e socioeconômicas. O risco de hospitalização por asma é muito maior nas regiões Norte e Nordeste do que no Sul e Sudeste, refletindo limitações estruturais, dificuldade de acesso a exames e barreiras ao tratamento. Além do sofrimento humano, a asma também gera faltas ao trabalho e à escola, perda de produtividade e custos expressivos ao sistema de saúde, representando uma carga desproporcional sobre famílias de baixa renda. 

E, para muitos brasileiros, o acesso a inaladores e medicações adequadas ainda é restrito.

Hoje, diretrizes nacionais e internacionais recomendam como tratamento preferencial o uso de corticoide inalatório associado a broncodilatador de longa ação no mesmo dispositivo inalatório. É contraindicado o uso de broncodilatador isolado, ele trata os sintomas, mas a causa da doença, a inflamação nas vias aéreas, não. Seu uso aumenta o risco de exacerbação e morte.

Hoje, o tratamento combinado com corticoide inalatório e broncodilatador de longa ação permanece concentrado em níveis secundários de atenção. Levar essa opção à atenção primária e à Farmácia Popular reduziria crises, internações e idas repetidas à emergência. Cerca de 70% dos pacientes apresentam doença leve ou moderada e se beneficiariam diretamente dessa ampliação.

Outro desafio central é o subdiagnóstico e o diagnóstico incorreto. Muitos pacientes convivem por anos com sintomas confundidos com bronquite, pneumonia ou ansiedade. A espirometria, exame de função pulmonar essencial para confirmação diagnóstica, ainda é pouco disponível fora dos grandes centros. Como consequência, pessoas permanecem sem controle adequado, enquanto outras recebem tratamento indevido, levando ao uso inadequado de medicamentos e ao desperdício de recursos públicos.

Também preocupa o uso excessivo de corticoides orais. Embora importantes em crises agudas, seu uso frequente e prolongado pode causar obesidade, diabetes, hipertensão, osteoporose, catarata e depressão. Muitas vezes, isso revela falhas no acesso ao tratamento preventivo adequado e pode atrasar o encaminhamento para serviços especializados.

Há avanços importantes. Novas terapias biológicas disponíveis no SUS para parte dos pacientes com asma grave podem levar à remissão da doença. Inaladores mais modernos favorecem a adesão ao tratamento. Em linha com a campanha global para 2026 — acesso urgente a inaladores anti-inflamatórios para todos —, o novo Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) amplia o cuidado com terapias personalizadas. Mas esses avanços só terão impacto real se chegarem a quem mais precisa.

Garantir acesso universal ao tratamento da asma não é apenas uma questão médica — é questão de justiça social e saúde pública. Respirar é o gesto mais básico da vida. Transformá-lo em direito garantido, e não em privilégio, deve ser compromisso de todos nós.

 


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