ARTIGO

O DF urbano aos 66 anos: Brasília em direção ao centenário

Brasília vai se aproximando do centenário, ganhando população e aumentando os espaços urbanizados. Esses vão dando contornos de metrópole à cidade

Por ALDO PAVIANI, geógrafo e professoremérito da UnB

Já escrevi diversos artigos sobre Brasília e, em alguns deles, defendi a ideia de que todos os núcleos urbanos do Distrito Federal (DF) fazem parte da capital federal. Por isso, o Gama e Sobradinho, assim como todos os outros, somam para que a capital, que poderia ser um só bloco urbano, seja um conjunto de núcleos esparsos/disseminados no território. 

A mídia denomina a forma do DF de "quadradinho", quando, na realidade, trata-se de um retângulo irregular a leste e oeste. Ao norte e ao sul, os limites são demarcados com uma linha reta. Então, não se trata de quadradinho, mas de um naco de terras goianas oferecidas pelo então governador de Goiás, José Ludovico de Almeida (Juca Ludovico), ao governo federal para justamente abrigar a capital da República. Com isso, criaram-se as primeiras iniciativas para o que desejava Juscelino Kubitschek de Oliveira para a administração da capital, transferida do Rio de Janeiro para essa região do Planalto Central. 

Hoje, Brasília vai se aproximando do centenário, faltando 34 anos para tal, ganhando população e aumentando os espaços urbanizados. Esses vão dando contornos de metrópole à cidade, tendo apenas um município e não um conjunto deles para confirmar legalmente uma metrópole pelas regras vigentes. Também não é um lugar central, pois, pelo que estipulou Walter Christaller, Brasília deveria ter seis cidades a seu redor, de tal forma que haveria um hexágono de cidades como forma de ocupação do território, sendo Brasília o lugar central no comando dessa região. A Teoria do Lugar Central (TLC) foi proposta para a Alemanha em 1933 por Christaller. Muitos geógrafos e outros profissionais tentaram reaplicá-la sem muito êxito. Ademais, hoje, com a isenção do tempo passado, não há modo e mesmo propósito para se aplicar essa teoria para uma região ou para um conjunto urbano.

Alguém poderá justificar a aplicação da TLC para fins administrativos, o que poderá ser medida plausível, basta fazer uma tentativa de aplicação para uma dada região ou país que tenha uma distribuição homogênea da população no território, o que não será fácil constatar, porque sempre há uma cidade grande comandando o espaço no território do país. No caso brasileiro, Rio de Janeiro e São Paulo, nos respectivos estados, possuem enormes territórios sob os respectivos comandos, e não há como se aplicar a TLC. Isso também se aplica para Curitiba e Porto Alegre, bem como para Belém, Fortaleza e Manaus, o que torna o Brasil um exemplo contraditório para a aplicação da teoria.

Voltando aos 66 anos da capital e se olharmos um mapa da distribuição da população, veremos que Brasília provocou a "Marcha para o Oeste", tal como queria Getúlio Vargas, preocupado com os chamados "vazios" demográficos no Centro-Oeste e no Norte do país. Todavia, Brasília teve uma tênue mudança nesse aspecto, ocasionando um pequeno deslocamento populacional para o Oeste, não preenchendo nem de longe a expectativa de dezenas dos anos passados. Ao que se sabe, Juscelino Kubitschek não explicitamente retornou essa ideia de povoamento com a construção de Brasília. 

De fato, o DF recebeu dezenas de milhares de imigrantes — que foram se localizando nas diferentes cidades-satélites. Em 1971, estive pesquisando a respeito da mobilidade urbana e vi os primeiros habitantes de Ceilândia, saídos das favelas do Iapi, da Vila Sarah Kubitschek, do Morro do Querosene e de outros que se transferiram para a Ceilândia — e, com isso, formaram o maior núcleo urbano do Distrito Federal. As terras ocupadas para fins urbanos iam até o lamaçal existente no extremo oeste de Ceilândia, com trabalhos de drenagem e esperando o asfaltamento das ruas — trabalho que foi realizado com muita rapidez, tal como a iluminação pública e a ligação da energia elétrica com as moradias. Nessa época, cada morador foi pondo seu barraco no fundo do lote, aguardando a poupança para construir sua moradia definitiva em alvenaria. Todos colaboraram com a forma inicial de barril de Ceilândia, com a desfiguração feita mais recentemente com anexos para dar melhores condições aos novos habitantes da cidade. 

A cada dia, famílias se estabeleciam na cidade ou em algum ponto já "urbanizado", e a cidade esteve se expandindo e chegando atualmente aos 3 milhões de habitantes, destacando-se como uma das três maiores cidades brasileiras. 

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - 19/03/2025. Crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF. Coluna Nossos Mestres Professor Aldo Paviani

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