Por Alexandre Nicolini, pesquisador e especialista em aprendizagem e avaliação do ensino superior
Quando o Ministério da Educação (MEC) pensa em avaliação da aprendizagem para o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade) ou a Prova Nacional Docente (PND), um erro recorrente é tratar todos os cursos como se partissem do mesmo lugar. Eles deveriam, mas não partem.
A medicina, por exemplo, tem na sua estrutura curricular, desde o trabalho seminal de Abraham Flexner, em 1910, uma formação científica nos ciclos básico e clínico, a qual se acresce um espaço consolidado e obrigatório de formação na prática: o internato, os cenários de serviço, a aprendizagem in loco. O estudante de medicina deve ser avaliado não apenas pelo que sabe, mas pelo que faz diante de um paciente real. E o Enamed, ao trabalhar com situações-problema e casos de ensino, simula esse cenário de prática como referência na construção das questões. O desenho curricular do curso ajuda a avaliação.
O problema é que tendemos a acreditar que medicina é diferente porque tem esse espaço dedicado, e ponto final. Mas a reflexão que precisa ser feita é outra: os desafios reais estão nos outros cursos que não têm esse espaço, como os bacharelados, os tecnólogos ou as licenciaturas - cujos resultados da PDN, divulgados recentemente, revelaram o maior contingente de futuros professores já avaliado com níveis de proficiência que comprometem a educação básica como um todo. Esses são cursos em que a chance de formar profissionais meramente teóricos é altíssima simplesmente porque não há na arquitetura curricular da maioria deles um momento estruturado de aplicação prática do conhecimento em situação real ou simulada de trabalho.
É aqui que cabe ao MEC perceber que a avaliação precisa ser diferenciada, não para reduzir a exigência sobre os cursos que não dispõem de espaços estruturados de prática, mas para reconhecer que a proficiência aplicada nas profissões que o Enade avalia depende de condições curriculares concretas para ser desenvolvida. Avaliar competências profissionais exige considerar se o estudante teve ao longo da formação oportunidades reais ou simuladas de mobilizar conhecimentos em situações de diagnóstico, decisão e intervenção.
Uma saída tem sido guiar parte da formação na prática por meio de projetos extensionistas, com 10% da carga horária obrigatórios para curricularizar a extensão e criar oportunidades de aprendizagem em serviço para todos os cursos. Projetos integradores com extensão curricular permitem que o estudante de direito atue em núcleos de prática jurídica, o de psicologia, em clínicas-escola, o de administração, em empresas juniores de consultorias reais. É a mesma lógica do internato médico — aprender fazendo, avaliado pelo que entrega na prática.
O que a medicina tem de estruturalmente diferente não é um privilégio — é um sinal de design curricular. E o que os demais cursos precisam não é de menos exigência, mas de estrutura equivalente de formação prática para que a avaliação seja justa e a formação, completa. Essa, inclusive, foi a grande oportunidade perdida pelo novo Marco Teórico da EAD, que seria garantir o espaço para a formação em serviço em todos os cursos do ensino superior.
No Enade das Licenciaturas 2025, a distribuição entre modalidades revelou uma segregação quase completa. No conceito 1, a educação a distância responde por 94,1% dos alunos; no conceito 5, o presencial representa 95%. Como se duas realidades paralelas formassem professores para o mesmo país, mas com padrões de qualidade radicalmente distintos. E o curso de pedagogia foi o que concentrou as tensões mais agudas: 70% de seus concluintes estão nos conceitos 1 e 2, os mais baixos, e apenas 17,8% alcançam os conceitos 4 e 5.
Se o Brasil quiser ter melhores professores, será importante implementar projetos integradores bem desenhados, com avaliação baseada em competências e situações-problema reais, para permitir que os futuros docentes desenvolvam a própria identidade profissional como educador. Nesse sentido, é fundamental o estágio pedagógico supervisionado, o equivalente funcional do internato para quem não tem internato.
