André Gustavo Stumpf — jornalista
Tempos muito estranhos é o título de livro interessantíssimo de Doris Goodwin (Editora Nova Fronteira) que trata das relações especiais entre Franklin e Eleanor Roosevelt com Winston Churchill durante a Segunda Guerra Mundial. O primeiro-ministro inglês passou, naquele período, longas temporadas na Casa Branca, trabalhando na coordenação, com o presidente dos Estados Unidos, do esforço de guerra dos aliados. Eram três personalidades fortes, distintas e com objetivos claros. Mudaram os destinos do mundo, apesar de serem completamente diferentes entre si. Eles entenderam a mudança dos tempos e conseguiram conviver bem, apesar dos egos imensos e da situação pessoal distinta. Franklin, paraplégico, conduzia a política norte-americana, Eleanor, feminista, escrevia no The New York Times enquanto namorava sua secretária, e Winston, que conduzia a Inglaterra, introduziu a bebida alcoólica na Casa Branca.
Os tempos de hoje são também muito estranhos. Mas, infelizmente, não existem personagens tão ricos quanto os daquele período. O mundo assiste ao lento desfazer do mito de que o exército russo, herdeiro do exército vermelho, seria poderoso e capaz de vencer qualquer obstáculo. Ao contrário, a pequena Ucrânia, com inteligência e capacidade criativa, tem conseguido destruir a infraestrutura da Rússia com drones que voam em baixas altitudes, orientados por inteligência artificial, e destroem tudo que lhes é solicitado. Chegaram a bombardear unidades fabris em região próxima aos montes Urais, mais de 2 mil quilômetros distante da frente de combate. Recentemente isolaram as tropas russas na Criméia. Putin está perdendo sua guerra.
Trump fez sua guerra contra o Irã. O maior e melhor exército do mundo bombardeou tudo que podia. Destruiu cidades. O líder arrogante declarou ser capaz de fazer aquele país retroceder à idade da pedra. Israel pegou carona na guerra e invadiu o sul do Líbano, depois de arrasar a faixa de Gaza. Mas, para surpresa geral, o governo do Irã tornou-se mais forte e foi capaz de realizar violentos ataques contra as bases norte-americanas na região. Elas foram pesadamente atingidas. Washington não foi capaz de defender seus aliados. E Teerã completou sua obra ao fechar o Estreito de Ormuz. Provocou inflação no mundo inteiro, inclusive nos Estados Unidos. Trump rapidamente assinou tratado de paz, porque não conseguiu vencer. Perdeu. O governo do Irã está onde sempre esteve. E o resultado da guerra é nulo.
A situação retornou ao que os juristas chamam de status quo ante. Ou seja, como estava antes. A guerra, que custou ao contribuinte norte-americano cerca de US$ 30 bilhões, não modificou em nada a disposição das forças na região. Mas Trump continua a ser um jogador de pôquer na política internacional. Ele despreza o serviço diplomático dos Estados Unidos. Age por intuição, sob aplausos de seu círculo de assessores incapazes de dizer não. São bajuladores profissionais. Em relação ao Brasil, diz que o país é perigoso, joga duro, mas "ninguém joga mais duro que os Estados Unidos". Lamenta a prisão de um inexistente Bolsonaro Júnior. Estabanado, elefante em casa de louças, derruba tudo que vê pela frente. Vai causar problemas na eleição brasileira. Não esconde sua preferência pelos filhos de Jair, sem saber que, assim, beneficia as milícias que atuam no Brasil.
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Os tempos também são muito estranhos no Brasil. O poder econômico tomou conta do governo. Um pequeno banqueiro conseguiu subornar e corromper os mais altos funcionários da República. As desconfianças rondam tribunais, assustam o Congresso, porque senadores de alto calibre e deputados em posições estratégicas são surpreendidos por conclusões da Polícia Federal de terem recebido propina. O cabuloso episódio Master começou na Bahia, tempos atrás. A carreira de Augusto Lima, dono do Banco Pleno, foi meteórica no setor financeiro. O Credicesta iniciou a parceria com o Banco Master. Era um cartão de crédito consignado para servidores públicos. O negócio alcançou 24 estados e 176 municípios. O Banco Central autorizou o banco a funcionar em 2005. Anos depois decretou o fim daquela instituição.
Daniel Vorcaro foi além. Chegou a Brasília e distribuiu dinheiro grosso. Foi muito bem-sucedido. Quase comprou o BRB. Em seguida, para salvar o negócio, o BRB tentou comprar o Master. O Banco de Brasília quebrou e quase quebrou o Governo do Distrito Federal. Tudo resultado de corrupção pesada. O processo corre, entre solavancos e discussões ásperas, no Supremo Tribunal Federal.
As eleições deste ano serão realizadas debaixo de surpresas provocadas pelas revelações da PF e provocações originárias de Washington. Mas não há personagens brilhantes, nem intelectuais de primeira linha no jogo. Só interesse financeiro. Dólar e petróleo. Nada mais. Nenhum projeto de governo apareceu até agora nos discursos dos presidenciáveis. Os tempos estão muito estranhos.
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