O Brasil avança a passos lentos nos indicadores educacionais, segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad) voltada para o tema. Houve melhorias sutis em determinados aspectos, como a quantidade de crianças matriculadas na série correspondente — esse índice chegou a 96,1% em 2025, acima da meta de 95% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE). Mas existem chagas antigas e graves.
Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo ficou abaixo de 5%, no menor índice da série histórica iniciada em 2016. Apesar disso, o país convive com uma realidade dolorosa: 8,4 milhões de brasileiros não sabem ler ou escrever um bilhete simples. Trata-se de praticamente a população de Portugal. Esse contingente se concentra especialmente entre os brasileiros acima de 60 anos, que não tiveram a oportunidade de serem beneficiados pela universalização do ensino. Essa parcela da população, avaliam especialistas, representa um desafio para educadores, pois enfrenta as dificuldades típicas da idade, como mobilidade limitada, menor disposição para aprendizagem e pouca familiaridade com tecnologias que permitem o ensino remoto.
Em relação aos brasileiros acima de 15 anos, o cenário é um pouco melhor. O analfabetismo está em uma faixa de 2,6%, muito abaixo dos 13,8% verificados na população idosa. É importante ainda observar a queda no percentual de jovens até 29 anos que não frequentam escola nem têm uma ocupação profissional. Essa geração nem-nem representa 17,5% da população nessa faixa etária, percentual bastante inferior aos 22,4% registrados em 2019. Ainda assim, em números absolutos, os dados impressionam: há 8,1 milhões de brasileiros entre 15 e 29 anos que não trabalham, não estudam nem frequentam algum curso de qualificação profissional. É o futuro do Brasil atingido em cheio.
Os números divulgados pelo IBGE revelam o desafio monumental que o país tem pela frente. O Brasil jamais abandonará o estado de mediocridade econômica e civilizatória se não enfrentar firmemente as questões de fundo que definem o retrato educacional. A primeira tarefa é reduzir a desigualdade social. Tome-se novamente o exemplo do analfabetismo. Mais da metade dos brasileiros desprovidos de instrução mínima — 57,4% — estão concentrados na Região Nordeste. É na Região Nordeste também que está concentrada a maior população em extrema pobreza. Há, portanto, um claro alinhamento entre miséria e educação, que precisa ser debelado por meio de políticas sérias e consistentes.
A necessidade imperiosa de melhorar os índices educacionais se impõe ainda mais urgente considerando as rápidas mudanças na economia, fortemente afetada pelos avanços espantosos da tecnologia. Os brasileiros que têm dificuldades de adquirir o hábito de ler e estudar ficarão cada vez mais apartados da evolução econômica e tecnológica. Não apenas terão menores chances de conseguir um emprego qualificado; terão dificuldade até de interagir com realidades cada vez mais tangíveis, como o uso de inteligência artificial na prestação de serviços.
Em diferentes épocas, diversas nações experimentaram um salto qualitativo expressivo quando decidiram dar prioridade à educação. Grandes potências, como China e Estados Unidos, além de vários outros países asiáticos e europeus de uma forma geral, obtiveram ganhos espetaculares quando implantaram sistemas educacionais que atendiam ao máximo a sua população.
No caso do Brasil, como apontam os dados mais recentes da Pnad, é obrigação do país combater o legado de exclusão educacional perpetuado durante séculos. Trata-se de um assunto de Estado, que deveria ser avaliado com rigor e seriedade por qualquer autoridade. Recomenda-se ao eleitor que, em outubro, identifique qual candidato tem compromisso real com essa causa.
