André Ricardo Nunes Martins — jornalista, membro da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira-DF)
Num curto período de sete anos, dois expoentes do movimento negro — um homem e uma mulher — denunciaram mazelas do racismo à brasileira. Dois textos, dois protestos. Em 1999, e em 2006. As denúncias foram veiculadas na Folha de S. Paulo. O apressado dirá: "Isso é passado". Os manifestos, porém, soam contemporâneos, já que o dever de casa da inclusão racial é prioridade esquecida. Em ano de disputa eleitoral e de escândalos recorrentes das elites, eis a agenda que não se deve ignorar.
Os textos-denúncia foram recuperados na coletânea A palavra e o poder — uma travessia crítica por 40 anos de democracia brasileira (Ed. Civilização Brasileira, 2025), alusiva ao 40º aniversário do regime civil. São textos de opinião publicados entre 1984 e a primeira década deste milênio. Aos olhos de hoje, outros pensadores foram chamados a comentar a relevância do artigo original. Todos agrupados em oito subáreas tributárias de uma democracia que se busca efetiva e abrangente, sob a direção do professor Rodrigo Tavares e dos jornalistas Flavia Lima e Naied Haddad.
Os que ora destaco estão em Desafios da inclusão. Seus autores são Abdias do Nascimento, então com 92 anos, e a ativista Sueli Carneiro. Abdias — lembremos a quem está em deficit com o conhecimento de nossas raízes afrobrasileiras — foi um dos pioneiros do movimento negro no século 20, fundador do Teatro Experimental do Negro e do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, deputado federal (1983-87) e senador da República (1991-99) pelo Rio de Janeiro, professor-visitante de universidades estrangeiras, como a de Yale, e conferencista de renome mundial. Já Sueli Carneiro é referência do movimento negro feminista, pesquisadora e autora renomada. Fundou em 1988 o Geledés - Instituto da Mulher Negra.
Comecemos pelo primeiro, embora cronologicamente seja o segundo. Em 7 de julho de 2006 — a menos de sete anos de sua morte — Abdias levanta a voz por políticas públicas em prol da igualdade racial. As cotas raciais começavam a ser implantadas em universidades públicas desde 2002, e o movimento só crescia com o engajamento da sociedade civil e do poder público. No título, no entanto, vê-se modéstia. Ele valoriza cada tijolo acrescido à construção coletiva por dignidade racial que tem a ver com reparação e compensação. Em Ação afirmativa: o debate como vitória, Abdias celebrava o sistema de cotas para negros e indígenas sendo implementado já em 30 universidades, reconhecendo que fazer a sociedade civil debater a matéria já era uma vitória em si.
Enfrentou a discussão sobre o conceito de raça, desacreditado na biologia, mas bastante operante na realidade social. Realista, Abdias não via na medida o fim do racismo, pretensão muito ambiciosa. Almejava, sim, "elevar a autoestima da população negra e proporcionar-lhe um grau de igualdade de oportunidades". Sereno, justo e equilibrado, soube reconhecer que, nesse debate entre favoráveis e contrários às cotas, "existe vida inteligente dos dois lados". Sua intervenção é na perspectiva de quem pensa grande: "a ação afirmativa favorece a nação brasileira, ampliando as oportunidades abertas à maioria de nossa juventude".
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Em 27 de dezembro de 1999, Sueli Carneiro chamava a atenção para o júbilo que tomava conta dos ítalo-brasileiros por estarem se vendo na telenovela Terra nostra, então em exibição pela TV Globo, fato constatado pelo deputado Aloizio Mercadante junto à comunidade italiana. O paralelo é óbvio: também os afro-brasileiros querem se reconhecer na tela da TV em produções que façam jus à grandeza, ao arrojo, à luta e resiliência dos africanos que para cá vieram e seus descendentes.
Em vez disso, tem-se produções de ânimo escravocrata. Reproduz-se o negro objeto e o racismo abjeto. Alimenta-se o viés conformista. Quem não tem passado admirável está perdido. Sueli Carneiro explora a contradição entre a realidade ao gosto da elite racista e a batalha travada pelo movimento negro. Impossível negar, resta esconder. Na tela da TV e na esfera pública, investe-se num projeto "que invisibiliza as lutas do presente por igualdade de direitos e oportunidades e pela afirmação da identidade étnico-cultural, as reivindicações de políticas públicas inclusivas..." Ou nas palavras do deputado negro Ben-Hur Ferreira, citadas no artigo: "... a novela opta por uma leitura do passado que reforça a violência racial do presente".
As ações afirmativas prosseguem e são um sucesso. A tela da TV tem ficado mais plural. Abdias e Sueli são exemplos de não conformidade. Que surjam mais guerreiros e novas conquistas.
