Visão do Correio

Monitoramento do sarampo entra em fase decisiva

O ideal é que o Brasil herde da Copa realizada no epicentro do sarampo nas Américas apenas a taça do hexacampeonato

A Copa do Mundo chega à segunda metade do calendário com um clima de tensão que ultrapassa os gramados. O torneio que mobiliza seleções e torcedores de 48 países é, desde o início, foco de preocupação sanitária em razão do avanço de infecções por sarampo nos países-sede. Com o retorno dos desclassificados e de quem foi acompanhar apenas a fase de grupos, o monitoramento entra também em fase decisiva. Trata-se de uma das doenças mais contagiosas do mundo, com risco de morte e sequelas graves. Mesmo em campo, o Brasil não pode se dar ao luxo de postergar a vigilância. 

É recente a reconquista do certificado de país livre de sarampo. Em novembro de 2024, depois de quase cinco anos recuperando taxas de cobertura vacinal prejudicadas pela pandemia da covid-19 e, sobretudo, pelo fortalecimento de movimentos negacionistas, o Brasil parou de registrar a circulação endêmica do vírus. O ideal é que herde da Copa realizada no epicentro do sarampo nas Américas apenas a taça do hexacampeonato.  

Desde o começo do ano, foram registrados 22.674 casos da doença na região, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estados Unidos, México e Canadá respondem por 65% dos casos. São 14.813 confirmações nos três países — 2.104, 11.636 e 1.073, respectivamente. Dois dias antes do início da Copa, o número de infectados era 14.470. Aparentemente pequeno, esse aumento de 343 casos em três semanas preocupa pelo alto poder de disseminação do vírus. Uma única pessoa com sarampo pode transmitir a doença para outras 18 — um potencial de contágio três vezes maior do que o da covid-19. 

 A Guatemala fecha o bolsão de alerta sanitário da região. O país que faz fronteira com o México contabiliza 7.067 casos no ano — 311 confirmados ao longo do Mundial — e mais da metade das mortes: 22 das 39, além dos 16 óbitos no México e um na Bolívia.  Há confirmados três casos no Brasil, mas sem a circulação contínua e sustentada da doença por 12 meses, condição que garante o certificado que o Ministério da Saúde não pretende perder na Copa.

Para isso, também precisará ficar de olho nas fronteiras. Ainda que, em proporções menores, países vizinhos têm registrado o avanço do sarampo. São 665 casos no Peru, sendo 157 oficializados durante o torneio de futebol. A Bolívia contabiliza 75 infectados, cinco registrados nos últimos dias. Ainda que não tenha confirmações da doença neste ano, a Venezuela vive um momento tão dramático do ponto de vista sanitário que não é exagero afirmar que é o vizinho mais suscetível ao vírus contagioso.

Não se pode, portanto, baixar a guarda. Seguindo orientação da OMS, o governo brasileiro lançou campanha, em abril, orientando os brasileiros que planejavam assistir aos jogos da Copa nos países-sede que embarcassem com a proteção contra o sarampo em dia. Para fechar o ciclo sanitário, precisa, agora, monitorar o retorno dos turistas com eficácia. Há expertise para isso. A forma como o país conduziu os casos de suspeita de ebola é a prova mais recente nesse sentido.

 

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