ARTIGO

A maçaranduba do tempo

Nada resiste indefinidamente à maçaranduba do tempo. Nem projetos de poder, nem narrativas sustentadas pela força, nem arrogâncias travestidas de autoridade

Valdir Oliveira ex-secretário de Desenvolvimento Econômico do Distrito Federal

Todo poder que se imagina eterno começa a cair no dia em que acredita que o tempo deixou de julgá-lo. O ex-governador de Pernambuco Joaquim Francisco costumava explicar essa realidade com uma expressão simples e profundamente simbólica: "a maçaranduba do tempo". A maçaranduba é uma madeira extremamente dura e resistente. Na metáfora política, simboliza a força silenciosa do tempo — aquela que, mais cedo ou mais tarde, desgasta as ilusões do poder, revela contradições e coloca cada acontecimento em seu devido lugar.

No fundo, a política sempre acaba se rendendo à mesma verdade: o tempo é o grande revelador da história. Nada resiste indefinidamente à maçaranduba do tempo. Nem projetos de poder, nem narrativas sustentadas pela força, nem arrogâncias travestidas de autoridade.

Mas há algo que também precisa ser dito: nem a verdade se rende ao tempo quando encontra quem resista a ela. Nos últimos anos, assistimos a um estilo de governar marcado pelo personalismo e pela concentração de poder. Em determinados momentos, a vida pública pareceu se afastar das regras institucionais para se aproximar da lógica de um engenho colonial, como se estivéssemos diante de um senhor de engenho, cercado de capatazes, feitores e capitães do mato.

Nesse ambiente, divergir deixou de ser apenas discordar. Muitas vezes, significava enfrentar consequências. Posições firmes passaram a ser tratadas como afronta. A defesa de princípios transformou-se em inconveniência. A liberdade de expressão passou a sofrer tentativas de contenção.

Artigos foram questionados antes mesmo de serem publicados. Houve quem pretendesse estabelecer filtros prévios para aquilo que poderia ou não ser escrito. Em determinado momento, chegou-se a exigir leitura prévia de textos antes da publicação — prática incompatível com qualquer ambiente verdadeiramente democrático.

Houve prejuízos. Houve constrangimentos. Houve tentativas de isolamento. Mas não houve rendição. Porque, como a própria maçaranduba, há quem resista. Sem ceder. Sem se submeter. Permanecendo firme mesmo diante das intempéries do poder.

Era a velha lógica do engenho: o senhor mandava, os feitores executavam, os capatazes vigiavam e os capitães do mato perseguiam. Durante algum tempo, parecia funcionar. Até que começou a agir a única autoridade que nenhum senhor de engenho jamais conseguiu controlar: a maçaranduba do tempo.

Ela não derruba o poder pelo grito. Corrige-o pela verdade dos fatos. Quando começa a agir, reorganiza silenciosamente a história. O que parecia força revela fragilidade. O que parecia controle expõe limites. O que parecia definitivo mostra-se passageiro. E aquilo que parecia silenciado volta a encontrar voz.

Nos últimos tempos, sucessivos episódios tornados públicos, inclusive por investigações policiais, nas áreas da saúde, da educação e da segurança pública e, em especial, a derrocada de um banco estatal passaram a levantar questionamentos sobre governança e responsabilidade administrativa.

Talvez o aspecto mais curioso tenha sido outro. Diante de cada episódio, repetia-se praticamente a mesma narrativa: ninguém sabia de nada. Quanto maior parecia ser a concentração de poder, menor parecia ser o conhecimento sobre aquilo que acontecia dentro da própria estrutura administrativa.

A história costuma ser implacável com esse tipo de narrativa. Na música O tempo não para, de Cazuza, o tempo aparece como um juiz silencioso. Ele não debate. Não se explica. Apenas segue. E, ao seguir, revela. Na vida pública, acontece exatamente o mesmo. A sabedoria bíblica já ensinava isso há milênios: "Tudo tem o seu tempo determinado". Há tempo de plantar e tempo de colher. Há tempo de falar e tempo de silenciar. Há tempo de resistir e tempo de ser reconhecido.

A maçaranduba do tempo lembra exatamente isso: nem o poder é eterno, nem a resistência é inútil. Ela enfrenta o vento. Suporta a chuva. Resiste às tempestades. Quanto mais o tempo passa, mais profundas se tornam suas raízes.

A maçaranduba do tempo não se apressa. Mas, quando chega, confirma aquilo que o poder tentou ignorar desde o início: nenhum poder que se imagina eterno resiste ao seu julgamento. Ela revela quem acreditou ser senhor de engenho e quem, como a própria maçaranduba, suportou as intempéries, as perseguições e as adversidades sem perder as raízes, sem ceder, sem se submeter e permanecendo de pé na defesa daquilo que é público, republicano e verdadeiro.

Porque o senhor de engenho passa. Os capatazes passam. Os feitores passam. Os capitães do mato passam. Mas a maçaranduba? Essa permanece.

 

 

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